[ ontem, uma ventania varreu minha rua e assoprou o pó de toda a cidade.
tempestade.]
terça-feira
[oficina de escritores 2]
O livro de Stephen Koch, Oficina de Escritores - um manual para a arte da ficção, é daquelas obras para serem lidas na íntegra e folheadas em momentos de necessidade, em itens específicos que podem ser úteis em um momento de dúvida ou de desespero. Acho que a Bíblia também é assim, não? (rs). É um livro destinado principalmente a escritores iniciantes, com informações e dicas importantes sobre a escrita literária. O autor formatou o livro baseado em sua experiência em classe de aula na universidade. E se apóia em exemplos de escritores consagrados para aconselhar os novatos. As principais dúvidas que afligem quem pretende escrever textos literários são abordadas e, o mais importante, os conselhos são sempre encorajadores.
[ É preciso sentar-se e escrever. Nem sequer importa, de fato, se você está com vontade de escrever. Como diz Tom Wolfe: "às vezes, se as coisas não vão bem, forço-me a escrever uma página em meia hora. E percebo que isso é possível. Descubro que aquilo que escrevo quando me obrigo a fazê-lo costuma ser tão bom quanto o que escrevo quando me sinto inspirado. Trata-se principalmente de se forçar a escrever. Há um ensaio maravilhoso que Sinclair Lewis escreveu a respeito de como escrever. Ele disse que a maioria dos escritores não entende que o processo realmente começa quando eles se sentam."]
O livro aborda os seguintes tópicos:
A Vida de escritor
Como dar forma à história
Como dar vida às personagens
Como inventar seu estilo
A história do eu
Trabalhar e retrabalhar
Para Koch, escrever é trabalhar duro em cima de um tema, avançar na escrita sem se importar com as dificuldades que surjam; nunca interromper o trabalho e, ao final, retrabalhar e retrabalhar o texto por meio de muitas releituras e revisões.
[A maioria dos escritores começa na incerteza, com uma pequena coisa chamada "germe" ou "semente" da história. Essa "semente", segundo E. L. Doctorow, pode ser qualquer coisa. "Pode ser uma voz, uma imagem; pode ser um momento de profundo desespero pessoal. Por exemplo, em Ragtime, estava tão desesperado para escrever algo que comecei a escrever sobre a parede, porque estava olhando para a parede domeu escritório em New Rochelle. Nós escritores, costumamos ter dias assim. Em seguida, escrevi sobre a casa onde estava aquela parede. Como a casa tinha sido construída em 1906, evoquei essa época e imaginei como era então a Broadview Avenue: os bondes percorriam a avenida ao pé da colina, as pessoas vestiam roupas brancas no verão para enfrentar o calor. Teddy Roosevelt era presidente. Uma coisa levou a outra, e foi assim que o livro começou; o desespero produziu essas poucas imagens."]
Enfim, antes de qualquer curso mais profundo sobre o assunto, a leitura desse livro pode ser bastante útil, até para saber se é isso mesmo que queremos fazer. Drummond dizia: só escreva se não puder deixar de fazê-lo. E sempre se pode deixar, completava. O Museu da Língua Portuguesa costuma fazer workshops gratuitos com escritores, O SESC regularmente leva escritores para para falar sobre sua atividade. São boas oportunidades pra quem quer começar a escrever.
segunda-feira
[oficina de escritores]
[uma resposta que a Miriam deu para um post publicado ontem me deu a idéia de escrever sobre o tema "oficina de criação literária". Ela disse que estava pensando em fazer uma oficina com esse objetivo, iniciativa que eu apoio com entusiasmo. Mas, antes de se matricular em qualquer curso nesse sentido, acredito que esse trabalho pode ser precedido pela leitura de dois ótimos livros publicados recentemente e que estão disponíveis nas livrarias por preços bem acessíveis: Oficina de Escritores - um manual para a arte da ficção, de Stephen Koch (Editora Martins Fontes) e Para Ler como Escritor, de Francine Prose (Zahar). Antes de qualquer investimento com um curso especializado em escrita criativa, que pode ser caro (dependendo do local ou de quem ministra o curso), acredito que a leitura desses dois livros pode ser o passo inicial para ações posteriores.
O livro de Stephen Koch é muito estimulante para quem deseja escrever. E, acima de tudo, é encorajador. Ele próprio foi professor de escrita criativa e é um bom romancista e um grande conselheiro para quem quer se iniciar na carreira literária, mas ainda tem dúvidas.
Amanha vou falar mais sobre esses livros.]
O livro de Stephen Koch é muito estimulante para quem deseja escrever. E, acima de tudo, é encorajador. Ele próprio foi professor de escrita criativa e é um bom romancista e um grande conselheiro para quem quer se iniciar na carreira literária, mas ainda tem dúvidas.
Amanha vou falar mais sobre esses livros.]
domingo
[alegria do polaco]
Na época de Alcântara Machado: vida operária na São Paulo italiana.Meu amigo Raul Drewinick, que escreve livros infanto-juvenis, deve estar radiante com o sucedido neste sábado frio. Um dia, conversando na redação onde trabalhávamos, ele me disse que sua obra literária preferida era um conto de Alcântara Machado intitulado "Corinthians 2, Palestra 1". É uma história, escrita nos anos 20, que está no livro "Brás, Bexiga e Barra Funda". O livro todo é delicioso. Quem gosta de ler histórias ambientadas na cidade de São Paulo, no meio operário e dos imigrantes italianos, não sabe o que está perdendo.
sábado
[uma jovem turca nos acompanha]
Ponte sobre o Estreito de Bósforo: ligação entre Ocidente e Oriente.[nesta noite de sábado friorenta paulistana uma nova seguidora acompanha o blog: a jovem turca Sedef Fulda Daren. Não sei como ela chegou aqui, acho que nem ela sabe. Talvez ela entenda português ou use o tradutor do google como eu fiz na página dela. Pelo que entendi do perfil dela em turco (mal) traduzido pelo programa, ela tem tudo para gostar de Santa Clarice Lispector. A Viagem Imóvel faz a ponta entre Oriente e Ocidente, como a Turquia, terra do prêmio Nobel de Literatura Orhan Pamuk, que um dia quero conhecer.
Atravessando a ponte do Estreito de Bósforo, depois de muito andar, chegamos à cidade de Rubim, em Minas Gerais, de onde nos acompanha o Kawan, de 16 anos, que nunca imaginou que apenas uma ponte o separaria de Sedef.]
["professores, deixem alencar em paz"]
Lira Neto: Alencar não é purgante! Foto de Lailson Santos/DivulgaçãoO jornalista e escritor cearense Lira Neto é autor de uma biografia sobre José de Alencar premiada com o Jabuti de 2007. Numa interessante entrevista ao jornal O Povo, de Fortaleza, ele fala desse trabalho e critica os professores de literatura por obrigarem os jovens a ler alguns clássicos sem receber nenhum preparo para isso:
[Querem que pobres meninos e meninas indefesos leiam textos do século XIX sem nenhum trabalho prévio. Depois não entendem porque os alunos não gostam de ler mais nada para o resto da vida. Ora, a literatura de Alencar - assim como a de Machado e a de outros clássicos literários - é ministrada aos jovens como uma espécie de purgante, um remédio contra lombrigas. Professores de língua portuguesa, façam-nos o grande favor: deixem Alencar em paz! ]
sexta-feira
[malagueta, perus e bacanaço]
[o livro de estreia de João Antônio, publicado em 1963, traz oito contos e uma novela e é ambientado na zona urbana de São Paulo, tendo como personagens homens da periferia, desempregados, biscateiros, jogadores de sinuca. Malagueta, Perus e Bacanaço é a novela que fecha o livro com chave de ouro. É a história de três malandros (que dão nome ao livro) que se conhecem num salão de sinuca e decidem se unir para ganhar dinheiro com trapaças, jogos arranjados, marmeladas. Estão sempre em busca de locais novos onde possam tirar dinheiro dos otários, como eles dizem. A história foi filmada em 1977 por Maurice Capovilla, com Gianfrancesco Guarnieri no papel de um dos jogadores.
João Antônio sacudiu os padrões literários da época com seu estilo seco, texto sem nenhuma gordura, ambientado nas rodas de malandragem, com seu linguajar característico. João Antônio traçou um retrato sem retoques dos desvalidos de São Paulo. Esse jogo de cintura também foi usado em seu trabalho como repórter. Eu ainda estava no início de minha carreira quando o li, seguido depois por José Louzeiro e Octávio Ribeiro, o Pena Branca, famoso por suas reportagens sobre o Esquadrão da Morte, que originaram o livro Barra Pesada. Não sei se esses livros estão no catálogo das editoras, mas valem a pena ser lidos, principalmente pelos estudantes de jornalismo. Não deixam nada a dever ao new journalism americano.]
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