sábado

[patricia highsmith]

Essa moça me tirou o sono certa vez. Tinha viajado para o exterior a trabalho e levei um de seus livros na bagagem. À noite, no quarto do hotel, abri a obra e imaginei ler algumas linhas antes de dormir. Não consegui parar até chegar à última página, quando o dia já estava amanhecendo. Essa é Patricia Highsmith, romancista e contista de primeira, criadora de um dos mais interessantes assassinos da literatura: Tom Ripley, personagem, se não me engano, de quatro romances. Talvez seja mais fácil rotular o gênero literário adotado por Patricia como literatura policial, mas, na verdade, suas obras possuem uma densidade psicológica que dificilmente é encontrada no gênero noir, povoado de detetives durões, loiras fatais, investigações que dão reviravoltas e acabam chegando a um culpado insuspeito.
Nos romances de Patricia Highsmith não interessa quem vai morrer, porque sua morte já está traçada desde o início da obra.
O que importa é entrar na cabeça do criminoso e entender seus motivos. Alguns de seus livros foram adaptados para o cinema, mas nem todos bem realizados. Ela própria não gostava da maioria das adaptações. Talvez uma das melhores adaptações seja seu romance de estréia, Pacto Sinistro, filmado por Alfred Hitchcock.
Nos anos 60, O Sol por Testemunha, primeiro romance com Tom Ripley, foi adaptado com Alain Delon no papel de Ripley, com um final

completamente diferente do romance. Eu prefiro o final dela, sem punição.

Win Wenders filmou o segundo livro do personagem, O Amigo Americano, com melhor resultado, com Dennis Hopper. E, mais recentemente, foi feita nova versão hollywoodiana de O Sol Por Testemunha, que se chamou O Talentoso Ripley (fiel ao título original) com Matt Damon no papel principal. Não vi esse último filme ainda.

Impossível ler dois livros de Patricia na sequência. Você termina a leitura literalmente acabado. É preciso um tempo de depuração.

Melhor intercalar a leitura com um texto mais leve para que você não perca o mínimo de crença na humanidade.

Se em seus livros ela não nutria nenhuma piedade por seus personagens, na vida real nutria um respeito profundo pelos animais. Em Catástrofes (nem tanto) naturais, os animais se vingam de forma cruel de seus donos pelos maus tratos a que foram submetidos.
Patricia nunca teve nos Estados Unidos o reconhecimento que merecia e viveu a maior parte de sua vida na Europa, em pequenos vilarejos entre a França, a Itália e a Suíça, praticamente reclusa. Quase não dava entrevistas e exibia um rosto fechado, marcado por rugas profundas, que nem de longe lembravam a moça bonita que um dia foi fotografada segurando um gato de encontro ao peito.


















["se me aparece a frase, paro e escrevo"]

Gatos e literatura, pela escritora portuguesa Hélia Correia, na revista Time Out de Lisboa
[há sujeições que posso tornar públicas e essas são os gatos e a escrita. Devo dizer que reconheço nas duas entidades semelhanças.

Talvez os gatos e a escrita tenham vindo do mesmo ovo que um deus fertilizou. Instalaram um trono vitalício dentro da minha vida desde cedo. Incorporei-os tão intensamente que nem sei onde acabo e eles começam. Há uma simbiose que pertence à mais baixa biologia. Mas a palavra simbiose é mal escolhida. Eles viveriam muito bem sem mim. Eu, sem eles, é que não. E sabem isso. Sabem perfeitamente que dominam.

Comportam-se ambos com igual sobranceria. Vêm se querem, quando querem, para que os sirva, mas se sou eu a convocá-los, não me ligam. Se entendem que lhes devo abrir a porta, chamam às horas mais desconfortáveis. Lá me levanto, às quatro da manhã, ou para escrever ou para deitar whiskas no prato. A retribuição é coisa pouca: um roçar pelas pernas, uma frase. E eu, ciente da minha condição, renunciando à dignidade humana, agradeço a bondade do incómodo.

Estou sempre preparada para o encontro: na mochila carrego com comida para felinos... e um caderno. Se me aparece um gato, faço a vénia, mio delicadamente e dou o almoço. Se me aparece a frase, paro e escrevo.

Sempre de momentos breves, porém intensos e definitivos. Passa-se nisto o tempo de calor. Pelos começos do Outono, surgem hóspedes dispostos a estadia prolongada: o gato fica de pensão completa, passa os meses do frio e vai-se embora. A escrita permanece em casa pelo mesmo período. Os meus gatos de Inverno adoram chuva. A minha escrita só consegue organizar-se em texto quando chove. De Março até Outubro, o que reúno das raras frases que consentem aparecer resulta em pequenos contos. Mas enquanto andam nuvens negras pelo céu, a corrente entre a escrita e os meus dedos alcança nível proporcional à pluviosidade da estação.

Com a subida geral das temperaturas e a saarização deste país, é de fazer ideia que decorrem os dias e os meses e os anos sem que essa energia das palavras que me caem do céu “como farrapos” possa gerar um livro que se veja. Bem procuro imitar um clima nórdico, espalhando em roda certos objectos, tais como o pau-de-chuva do Peru, o quadrinho de areia branca e negra que vai caindo com a gravidade, criando a ilusão de um temporal, uma canção dos LadySmith, Mambazo, Rain, Beautiful Rain, que o Changuito me trouxe, uma caixa de música com o Singing in the Rain… Formam como que um templo de oferendas e é dentro dele que me escondo, à espera.

Porque escrevo frase a frase, hoje uma, outra não sei quando virá, inseridas num esquema musical que determina a sequência. Não é maneira de fazer romances, mas quem sou eu para dizer à escrita que devia tentar ter disciplina?

Estou feliz porque a gatinha que me apareceu este Inverno não tenciona emancipar-se tão depressa. De chuva, pouco vejo. Mas talvez a escrita aceite aqui morar por algum tempo, como esta extraordinária Emily Duncan. É gatinha com nome de escritora – Emily Brontë – e de Isadora, inspiração eterna. Desde que ela apareceu começamos as manhãs a dançar. Se pela noite, surgir uma pequena, amável frase, talvez que finalmente nasça um livro.]

sexta-feira

[meus tipos inesquecíveis]

[1975. Chegou à redação onde eu trabalhava, no interior de São Paulo, um jornalista do Rio de Janeiro. Caboclão gordo, dentes tortos, olhos pequenos e quase totalmente fechados, lentes grossas equilibradas no nariz largo, disfarçava a barriga com uma camisa larga por fora da calça. Suava exageradamente e tirava a toda hora do bolso um lenço para secar a fronte, ensopada e oleosa. Do outro bolso puxou uma carta de apresentação assinada por um jornalista carioca de renome. Anos depois, ao lembrarmos de sua passagem pelo jornal, nos demos conta que aquela carta amarrotada, colada com durex, de tanto ser aberta e fechada, era o que lhe abria as portas em jornais da provincia. Na verdade, pelo que lembrávamos da carta, o tal jornalista famoso não se comprometia em nada, apenas dizia que ele era uma grande figura, pau pra toda obra, para também não se comprometer em demasia.

Ele chegou na companhia do dono do jornal e foi apresentado como o novo editor-chefe, que nunca o vira na vida, mas se encantara com sua figura carismática. Para mim e mais três ou quatro colegas que ainda estavam na faculdade, era a oportunidade de conviver com alguém da velha guarda e aprender as malandragens da profissão. Ele pegava a caneta, corrigia nossos textos datilografados e descia as matérias para a gráfica. Sua letra era horripilante, mas Alberto, o chefe dos linotipistas, era calejado e conseguia decifrar os garranchos. Quando não conseguia, interpretava e escrevia sua versão, que era a que ficava gravada de forma definitiva nas linhas de chumbo cuspidas pela linotipo. E saía no jornal do dia seguinte. Depois do fechamento íamos para o bar e ele se equilbrava no tamborete ao lado do balcão e debelava suas chamas internas com cerveja e um destilado amargo intragável. E nos contava suas histórias nas trincheiras dos jornais cariocas. Nos embriagávamos com as histórias da profissão. Separado da mulher (naquela época o divórcio ainda não havia sido legalizado), ele tinha um filho adolescente que não morava com ele, batizado com o nome de um compositor clássico alemão. No meu aniversário me deu de presente um livro de contos de Guimarães Rosa, com bela dedicatória. Tenho o livro até hoje, afinal é um Guimarães Rosa.

A rotina era o trabalho diário e, depois do fechamento, a ronda dos bares. Com o tempo notamos que suas mãos tremiam, um dos sintomas do alcoolismo. Não conseguíamos acompanhá-lo na bebedeira e, inevitavelmente, éramos sempre nós que pagávamos as contas. Também lhe emprestávamos dinheiro, apesar de nossos salários serem irrisórios perto do dele.

Mas ele cativava a todos com suas histórias de boêmia e de aventuras na companhia de figuras lendárias do jornalismo. O dono do jornal estava encantado: lhe alugou uma casa e foi seu fiador, um dos colunistas lhe comprou os móveis da sala em prestações. E o dinheiro que faltava no fim do mês ele nos tungava em empréstimos nunca pagos. E o tempo foi passando.

Um dia ele não foi trabalhar. Nunca mais voltou. Desapareceu deixando para trás a casa com vários meses de aluguel atrasado, pagos pelo dono do jornal, e o carnê dos móveis também no vermelho. Anos depois, quando já havíamos saído do jornal e prosseguíamos nossas carreiras em outras redações, um amigo daquela época me telefonou. Perguntou se eu lembrava daquele jornalista e disse que o tinha visto casualmente na rua, agora em São Paulo, pedindo esmolas, sujo e com as roupas em frangalhos. Ao ser reconhecido, ele se justificou: não era nada do que meu amigo estava pensando. Ele estava apenas disfarçado para fazer uma reportagem sobre o submundo dos mendigos e moradores de rua. E lhe pediu alguns trocados.]

quinta-feira

[bruma]

[são Paulo amanheceu coberta por uma névoa tênue, cor de leite desnatado. As pessoas que seguiam para o trabalho soltavam fumaça pela boca. Mas ainda era uma fumaça rala, não era fumaça curitibana, densa e branca como a de um charuto potente. É um dedo do inverno querendo chegar à cidade, abrindo caminho para se instalar de forma sorrateira.]

quarta-feira

[bola na rede]

[a psicanalista, escritora e blogueira (não necessariamente nessa ordem) Elianne Diz de Abreu, que também é Laura Diz, ou vice-versa, participa de uma coletânea de textos que reúne, entre outros craques, Juca Kfouri, José Roberto Torero, Luiz Zanin Oricchio, Humberto Werneck, José Castello e Xico Sá. São contos, poemas, crônicas e ensaios sobre a grande paixão nacional, o futebol. Tem gente que acha que essa é a segunda grande paixão, mas deixa pra lá. O livro sai pela Editora Casa das Musas e custa R$ 25. Haverá lançamentos em várias capitais:
Recife, 9/6 – Bar Mamulengo – Recife Antigo, 19h
São Paulo, 10/6 – Livraria Cultura, Shop. Villa-Lobos, 19h30
Rio de Janeiro, 15/6 – Livraria Travessa – Barra Shop, 19h30
Brasília, 19/6 – Livraria Cultura – Shop. CasaPark, 19h.

Se ela vier a São Paulo, pedirei seu autógrafo, junto com o de outros amigos e colegas que também dividem os créditos com ela. Bola pra frente Elianne! E muito sucesso nos lançamentos.]

[onde os peixes voadores nadam}

[na verdade não sei onde eles nadam, mas não deve ser em águas muito tranquilas, já que vira e mexe estão batendo asas acima da superfície do mar. As águas onde Ilana, nossa nova seguidora, mergulha também não devem ser repousantes. Seu texto, no blog Onde os peixes voam, permite enxergá-la como um exemplar raro, que não morde a isca facilmente. Ela se autodefine: "Estudante de idade irrelevante, apaixonada por cinema e um bom livro." Vejam como o blog dela é bonito e seu texto, envolvente.]

segunda-feira

[encontro marcado]

[tão bom quanto ler é conhecer pessoas que gostam de ler e conversar com elas sobre o que nós mais gostamos - ler. Escritor e leitor são feitos do mesmo abecedário, são alimentados pelas palavras. Alguns se lambuzam tanto que até se intoxicam. Como sou preguiçoso, estou sempre em regime, magrinho.
Neste próximo fim de semana vai ser realizado um encontro entre escritores e leitores no distrito de São Francisco Xavier, em São José dos Campos, durante o Festival da Mantiqueira, promovido pela Secretaria da Cultura de São Paulo. É o segundo ano do evento, uma espécie de Flip caipira (sem nenhuma conotação pejorativa). A novidade deste ano é que estará presente o escritor Cristovão Tezza, vencedor de todos os grandes prêmios literários do país com seu livro "O Filho Eterno", um vertiginoso mergulho na alma do escritor e de seu filho, Felipe, portador da Síndrome de Down. Livro forte, que nunca cai no melodrama ou na pieguice. Quero escrever mais amanhã sobre esse evento de São Francisco e de outros semelhantes existentes no país. Se alguém já participou de algum, podemos trocar figurinhas.]

Veja toda a programação do festival: