segunda-feira

"Billie Jean é só uma garota que diz que eu sou único"


[há uns dois ou três anos, quando ele foi acusado de abuso sexual contra um adolescente (foi absolvido), eu disse para um amigo: quem compõe uma música como "Billie Jean" não pode ir para a cadeia. Hoje refaço a frase: quem compõe uma música como Billie Jean não pode morrer. E o melhor tributo ao artista é ouvir Billie Jean na voz de Caetano Veloso, também o melhor intérprete para Lennon e Mcartney. Miles Davis, que sabia das coisas e gostava de Michael Jackson, gravou Human Nature. Assista apresentação de Davis na Alemanha, no YouTube.]

terça-feira

[agoniza mas não morre?]

[um velho samba de Nelson Sargento diz em um de seus versos mais conhecidos que "o samba agoniza, mas não morre", pois alguém sempre o socorre "na hora do suspiro derradeiro". Quanto ao jornalismo, já não tenho tanta certeza e também não temos tão bons poetas assim na profissão que possam, nesse momento agonizante, trazer uma palavra de alívio, principalmente para quem ainda está nas faculdades de Comunicação ou está prestes a se formar. A decisão do STF em acabar com a regulamentação da profissão de uma penada, com o único e voto contrário do ministro Ayres Brito (que tem tido ultimamente posições coerentes e bem fundamentadas em assuntos polêmicos, como a liberação de células troncos para pesquisas), parecia já uma bola cantada. No jogo de sinuca, bola cantada é aquela em que o jogador diz antecipadamente em que caçapa vai cair. Não existe surpresa.

A regulamentação da profissão, de 1969, começou a cair em 1979 quandos os jornalistas de São Paulo entraram em greve por aumento de salário e foram derrotados. Um reduzido grupo de colegas furou o movimento e passou a morar nas redações para impedir que os jornais deixassem de circular. Um jovem herdeiro de jornal de São Paulo disse a amigos que os jornalistas não eram confiáveis. Com o fim da greve, todos os jornais, rádios e TVs demitiram profissionais em massa.
Até então, uma geração de jovens profissionais, formados pelas faculdades de jornalismo, convivia sem muitos problemas com os jornalistas mais velhos não diplomados, que se formaram na chamada escola da vida, pois vinham de uma época em que não existiam escolas especializadas. Eles eram os modelos de profissionais nos quais nos espelhávamos e muitos deles foram nossos grandes e desinteressados professores. Havia uma efervescência nas redações. Era uma época politicamente muito rica.

O segundo passo contra a regulamentação da profissão e consequentemente pelo fim da obrigatoriedade do diploma, veio a seguir, quando alguns jornais (poucos) passaram a ignorar a regulamentação e passaram a contratar pessoas sem diploma. Para o leitor, passava-se a idéia de que viriam melhores profissionais. Passou-se a exigir que os candidatos a jornalistas tivesse pós-graduação, mestrado, doutorado, em qualquer área. A imprensa começou a flertar mais de perto com o meio acadêmico. Naturalmente, os horários de trabalho em uma redação que chegam a 12 horas por dia de segunda a quinta e mais de 15 horas na sexta-feira (quando começa a ser fechado antecipadamente o jornal de domingo), com jornadas de 14 dias de trabalho sem folga (em média), não permitiam esas veleidades intelectuais.

Quando foi demitido do São Paulo, o técnico Muricy Ramalho disse aos jornalistas: "Vocês não sabem 10% do que acontece dentro de um clube de futebol". Ele riu de um jeito debochado, como é sua marca, mas dava para sentir uma ponta de mágoa. Afinal, ele sofreu calado até ser apunhalado pelas costas. Mas manteve o bico fechado. É do jogo. Quem recebe seu jornal em casa ou o compra numa banca não sabe nem 10% do que acontece dentro de uma redação e que se reflete nas notícias publicadas. Não sabe das listas negras (desculpe o termo politicamente incorreto), das campanhas contra políticos, sindicalistas, atletas, intelectuais, artistas.

E chegamos hoje ao fim da regulamentação da profissão. A vingança é um prato que se come frio, e os donos dos veículos de comunicação foram pacientes. O que vai acontecer daqui para a frente não se sabe. Pode haver uma perseguição contra os jornalistas formados e sua substituição por profissionais de outras áreas; pode ficar mais difícil o acesso dos jornalistas diplomados às redações; pode cair a qualidade dos jornais. Mas, de certo mesmo, houve a derrota de uma categoria profissional que esteve sempre identificada com as grandes lutas do país: contra a ditadura, pela anistia, pelo respeito à cidadania e aos direitos humanos (bandeiras que não eram necessariamente defendidas pelos empresários da comunicação). Os jornalistas que ajudaram a escrever alguns parágrafos da história do país saem de campo e voltam para casa, no meio do campeonato, derrotados. E pior: querem fazer crer que não sabem jogar. ]

sábado

"perguntar é uma maneira de sobreviver no mundo"]

O escritor e tradutor João Silvério Trevisan disse, em um artigo publicado no site Paraná on Line, que já se perguntou diversas vezes para que serve a literatura. "Instigado por diferentes circunstâncias, já fiz essa pergunta inúmeras vezes em minha vida. De modo até angustiado. Afinal, quem tem tempo para ler romances em época de TV a cabo e internet? Por que criar novos mundos se o mundo ao meu redor já é duro demais para ser ignorado? Acima de tudo: o que posso acrescentar ao drama humano, já tão saturado com as brilhantes interpretações feitas por tantos “Homeros”, “Dantes”, “Shakespeares” e “Cervantes” que vieram antes de mim? "
Eu também já me fiz essa pergunta inúmeras tantas vezes. E, em cada ocasião, encontro uma resposta diferente, fruto de quem sou ou de como estou naquele dia. Às vezes sinto que ela não serve para nada. Outras, que ela serve de refúgio ou é uma fuga do presente. Olho para trás e me vejo, desde a infância, abrindo livros. E, desde aquela época, tenho a sensação que estou me escondendo ou fugindo de alguma coisa, ou que não quero encarar a realidade. Acho que esse podia ser um bom tema para uma das próximas Tertúlias.

quarta-feira

[um perdedor de cem anos]

O escritor Tomás Eloy Martínez publicou um interessante ensaio no New York Times sobre o uruguaio Juan Maria Onetti, cujo centenário de nascimento é comemorado este ano. Ele enfatiza a eterna desilução do escritor, suas histórias trágicas, o fascínio pela derrota. Dele só li o volume de contos Tão Triste como ela, que é muito bom. Vou começar logo El Pozo, seu primeiro romance, que ganhei de uma amiga numa bonita edição em espanhol.

[Ele próprio, Onetti, disse à escritora e jornalista uruguaia María Esther Gilio: "Todas as personagens e todas as pessoas nasceram para a derrota. A gente não pode deter a trajetória da personagem em um instante de triunfo mas, se continuarmos, o final é sempre Waterloo". Talvez por isso chegou em segundo lugar em quase todos os prêmios aos quais concorreu. Mas o último, e o mais importante na língua espanhola, o prêmio Cervantes que recebeu em 1980, serviu-lhe como conjuro contra as rejeições.
Tomás Eloy Martinez]

terça-feira

[plagiador premiado]

O site Digestivo Cultural trouxe hoje um texto do escritor gaúcho Moacir Scliar comentando o curioso caso de plágio de uma obra sua por um escritor canadense, que recebeu ainda um importante prêmio litérário pela idéia plagiada. Sem rancor e de forma equilibrada, o escritor brasileiro comenta todo o caso, que ainda teve repercussões internacionais. Sugiro a leitura. Vejam abaixo pequeno trecho do artigo de Scliar:

[o destino ainda bate à porta, claro, mas nesta época de comunicações instantâneas prefere o telefone. Na tarde de 30 de outubro de 2002, voltando para casa cansado de uma viagem, recebi uma ligação. Era uma jornalista do jornal O Globo, dando-me uma notícia que, a princípio, não entendi bem: parece que um escritor tinha ganho, na Europa, um prêmio importante com um livro baseado em um texto meu. Minha primeira reação foi de estranheza: um escritor, e do chamado Primeiro Mundo, copiando um autor brasileiro? Copiando a mim? Ela se ofereceu para me dar mais detalhes, o que foi feito em telefonemas seguintes, e assim aos poucos fui mergulhando no que se revelaria, nos dias seguintes, um verdadeiro torvelinho, uma experiência pela qual eu nunca havia passado. Sim, um escritor canadense chamado Yann Martel havia recebido, na Inglaterra, o prestigioso prêmio Booker, no valor de 55 mil libras esterlinas, conferido anualmente a autores do Commonwealth britânico ou da República da Irlanda (entre outros: Ian McEwan, Michael Ondaatje, Kingsley Amis, J.M. Coetzee, Salman Rushdie, Iris Murdoch). Sim, ele dizia que havia se baseado em um livro meu, Max e os felinos, publicado no Brasil em 1981, pela L&PM (Porto Alegre), e traduzido poucos anos depois nos Estados Unidos como Max and the Cats (Nova York, Ballantine Books, 1990) e na França como Max et les Chats (Paris, Presses de la Renaissance, 1991). É uma pequena novela que escrevi com grande prazer ― lembro-me de um fim de semana na serra gaúcha em que matraqueava animado a máquina de escrever, em todos os minutos em que não estava cuidando de meu filho, ainda pequeno. Minha primeira reação não foi de contrariedade. Ao contrário, de alguma forma senti-me envaidecido por ter alguém se entusiasmado pela ideia tanto quanto eu próprio me entusiasmara. Mas havia, na notícia, um componente desagradável e estranho, tão estranho quanto desagradável. Yann Martel não tinha, segundo suas declarações, lido a novela. Tomara conhecimento dela através de uma resenha do escritor John Updike para o New York Times, resenha desfavorável, segundo ele. Esta afirmativa me perturbou. ]

segunda-feira

[TERTÚLIA VIRTUAL - mi casa es su casa]

[me sinto em casa na casa de meus amigos. Posso ir sozinho à cozinha, abrir a geladeira e pegar uma cerveja, receber a atenção dos cães e gatos da família, que já conhecem o meu cheiro, folhear os livros nas estantes. De alguns desses amigos recebi pedaços de suas casas: uma planta do jardim, um enfeite, uma garrafa de bebida, pimentas secas mexicanas. Uma amiga mudou-se para uma casa menor e me presenteou com quadros, livros e móveis que não caberiam no apartamento menor. Seu marido me doou algumas ferramentas que ele usava para cuidar do jardim e que agora não teriam serventia em seu apartamento. Sua filha levou o cachorro.
Para um amigo que mora em apartamento, retirei de meu quintal uma muda de bananeira para ele colocar em sua sala como planta ornamental. Ela não dará frutos, mas se tornará uma personagem exótica que chamará a atenção dos visitantes, pela exuberância e tamanho de suas folhas largas.

Da casa de meus pais levei mudas de flores e de árvores frutíferas, num retorno à minha infância. Hoje elas atraem pássaros, borboletas e outros insetos. Quando era criança, guardava as joaninhas em caixas de fósforo e buscava vaga-lumes que eram comuns nos terrenos baldios repletos de vegetação. Pensei em fazer coleções de borboletas, mas desisti porque teria de matá-las e espetá-las numa cartolina. Construía belos estilengues, com forquilhas resistentes de galhos de goiabeira e tiras de borracha de câmera de bicicleta, mas nunca matei um passarinho. Sempre mirava as pelotas de mamona a dezenas de metros do bicho. Talvez tenha faltado um pouco de crueldade na minha infância, que eu compensava com a habilidade na batalha de pipas e na construção de carrinhos de rolimã.

Na época minha casa era também a casa de um amigo, filho de imigrantes libaneses, que morava na mesma rua, onde eu me banqueteava com kibes, esfihas e doces árabes, servidos numa mesa farta. A irmã dele, exuberante aos 15 ou 16 anos (eu tinha apenas 13), colocou na vitrola e eu ouvi pela primeira vez Help, dos Beatles, e Lady Jane, dos Rolling Stones. Os hormônios começavam a ferver, mas eu ainda lia gibi do Super-Homem e colecionava figurinhas.]

Esse é uma postagem da blogagem coletiva da Tertúlia Virtual, cujo tema é "Que lugar te faz sentir em casa"

sábado

[o que restou]

Inês e Abraham Metri, durante as filmagens de Liberdade de Pé

[sempre perdemos coisas pelo caminho. Os amantes perdem as meias, botões da camisa abertas com impaciência, peças de roupas que são rasgadas pois não se consegue tirá-las com a rapidez desejada, a rapidez da paixão, que é maior que a velocidade da luz. Às vezes deixamos rastros, como os pedacinhos de pão lançados por Joãozinho e Maria, que acabaram comidos pelos passarinhos. E com isso nos perdemos. Descobri que o Eduardo, sinhozinho do Varal de Ideias, dono de dezenas de cabeças de blogs (que estão engordando a olhos vistos), perdeu um filme, cuja personagem é uma colega jornalista que também já perdemos, Inês Knaut, com quem trabalhei na Folha de S. Paulo, no século XX. Convivi pouco com ela e não sabia de seu passado de modelo e atriz. Lembro que trabalhava na editoria de Geral, que hoje é Cotidiano e fazia aquelas reportagens que os jovens jornalistas sempre são incumbidos de fazer que sempre são chatas. Acho que ela escrevia sobre saúde. Ironia, ela que conhecia os melhores médicos, que os entrevistava a qualquer hora, perder a batalha para o câncer.


Pois o Eduardo perdeu um curta metragem que rodou com ela chamado Liberdade de Pé, do qual restam algumas fotos feitas pelo diretor de fotografia Abraham Metri. Quantos filmes, quantas músicas, quantos livros hoje guardamos na memória pois já não existem. É triste perdermos pedaços de nossa vida, de nosso corpo, pelo caminho. Mas que bom que ainda podemos lembrar e recriar o que foi perdido com uma obra nova, original. A palavra preserva a imagem perdida, o som perdido, o cheiro perdido. Preserva até o amor perdido que, quando acaba, vira poema. ]