Tarde de chuva. O gato está deitado ao lado do computador, quase em cima do teclado; a gata dorme no capacho atrás da porta, mas não está ouvindo Chico Buarque. Se ela não odiasse o gato estaria aqui pertinho ouvindo Vanessa da Mata.
terça-feira
sexta-feira
solano trindade
5ª Sinfonia de Beethoven
5ª Sinfonia de Beethoven
Os dois tímbalos
parecem o mundo
partido ao meio
Eu gosto da barbárie dos tímbalos
como de todas as melodias
como de todos os sons
como de todas as cores
como de todas as formas.
Detesto limitações
eu gosto da barbaria dos tímbalos
5ª Sinfonia de Beethoven
Estou sofrendo
como as mulheres do parto
Eu gosto da barbaria dos tímbalos
Chove lá fora
e Garcia Lorca passeia na chuva
Barbusse está cheio de amor de pela vida
e Beethoven escuta a própria Sinfonia
Não sei onde está o fim
nem o princípio das cousas
sei que gosto da barbaria dos tímbalos
Eu sou como a semante
que espera a terra
Eu serei plantado
e meus irmãos repousarão sobre mim
quando eu for uma árvore frondosa
Minha amada está despida para me receber
Seu corpo é como a 5ª Sinfonia
Seus olhos são como a 5ª Sinfonia
Seus seios
são como a 5ª Sinfonia
A minha amada é universal
Oh! se eu pudesse pintar a 5ª Sinfonia
Chove lá fora
Van Gogh passa em passos largos
Gauguin está pintando as mulheres das ruas
e eu estou perdido
dentro de mim mesmo
porque não sei pintar
a 5ª Sinfonia de Beethoven
Onde estão os bárbaros?
Onde estão os civilizados?
Onde está o amor?
Onde está o ódio?
Estão na 5ª Sinfonia
As crianças marcham à minha frente
cantando uma canção da esperança
Ouçam todos os que me entendem
eu amo a 5ª Sinfonia de Beethoven
e não quero limites para viver.
De "A Razão da Chama", antologia de poetas negros brasileiros. Seleção e organização de Oswaldo de Camargo, Edições GRD, 1986.
5ª Sinfonia de Beethoven
Os dois tímbalos
parecem o mundo
partido ao meio
Eu gosto da barbárie dos tímbalos
como de todas as melodias
como de todos os sons
como de todas as cores
como de todas as formas.
Detesto limitações
eu gosto da barbaria dos tímbalos
5ª Sinfonia de Beethoven
Estou sofrendo
como as mulheres do parto
Eu gosto da barbaria dos tímbalos
Chove lá fora
e Garcia Lorca passeia na chuva
Barbusse está cheio de amor de pela vida
e Beethoven escuta a própria Sinfonia
Não sei onde está o fim
nem o princípio das cousas
sei que gosto da barbaria dos tímbalos
Eu sou como a semante
que espera a terra
Eu serei plantado
e meus irmãos repousarão sobre mim
quando eu for uma árvore frondosa
Minha amada está despida para me receber
Seu corpo é como a 5ª Sinfonia
Seus olhos são como a 5ª Sinfonia
Seus seios
são como a 5ª Sinfonia
A minha amada é universal
Oh! se eu pudesse pintar a 5ª Sinfonia
Chove lá fora
Van Gogh passa em passos largos
Gauguin está pintando as mulheres das ruas
e eu estou perdido
dentro de mim mesmo
porque não sei pintar
a 5ª Sinfonia de Beethoven
Onde estão os bárbaros?
Onde estão os civilizados?
Onde está o amor?
Onde está o ódio?
Estão na 5ª Sinfonia
As crianças marcham à minha frente
cantando uma canção da esperança
Ouçam todos os que me entendem
eu amo a 5ª Sinfonia de Beethoven
e não quero limites para viver.
De "A Razão da Chama", antologia de poetas negros brasileiros. Seleção e organização de Oswaldo de Camargo, Edições GRD, 1986.
quarta-feira
noite de pau-de-arara
"Foi longa, tumultuada no início, mas terminou entre lágrimas e aplausos a primeira sessão pública do filme “Lula – O Filho do Brasil”, de Fábio Barreto, que abriu terça-feira à noite (18/11) o 42º. Festival de Brasília do Cinema Brasileiro.
Baseado em livro de Denise Paraná, que co-assina o roteiro com Fernando Bonassi e Daniel Tendler, o filme percorre a trajetória de Lula desde a infância, saindo de Garanhuns em pau-de-arara em 1952, com a mãe e irmãos, rumo a Santos (SP). Lá, reencontram-se com o pai, Aristides (Milhem Cortaz, de “Tropa de Elite”), alcoólatra e violento, que anos depois é abandonado por dona Lindu. Logo depois, ela e os filhos rumam para São Paulo, depois São Bernardo do Campo, onde Lula (na fase adulta, interpretado pelo estreante em cinema Rui Ricardo Dias) tornou-se operário e sindicalista, antes de entrar para a política."
Leia o relato de Neusa Barbosa, que estava na muvuca
Baseado em livro de Denise Paraná, que co-assina o roteiro com Fernando Bonassi e Daniel Tendler, o filme percorre a trajetória de Lula desde a infância, saindo de Garanhuns em pau-de-arara em 1952, com a mãe e irmãos, rumo a Santos (SP). Lá, reencontram-se com o pai, Aristides (Milhem Cortaz, de “Tropa de Elite”), alcoólatra e violento, que anos depois é abandonado por dona Lindu. Logo depois, ela e os filhos rumam para São Paulo, depois São Bernardo do Campo, onde Lula (na fase adulta, interpretado pelo estreante em cinema Rui Ricardo Dias) tornou-se operário e sindicalista, antes de entrar para a política."
Leia o relato de Neusa Barbosa, que estava na muvuca
mama áfrica
Essas imagens são algumas que selecionei entre outras 100 que recebi em Powerpoint. Normalmente, essas mensagens são correntes que, se não forem repassadas adiante, antecipam todas as catástrofes que podem se abater sobre o infeliz. Separei essas imagens de trabalhadores e de pessoas comuns que mexem os remos, movem máquinas, transportam utensílios, ou apenas aproveitam a infância para não fazer nada, como um gato. Lembro dos negros baianos lançando suas redes ao mar, desafiando o tempo de forma épica, como os pescadores de Dorival Caymmi; dos trabalhadores com as mãos calejadas que fazem a colheita do cacau, como nos romances de Jorge Amado; das mulheres com suas roupas floridas, como Dona Flor. Mas, acima de tudo, muito além da pobreza, são imagens que inspiram muito apego à vida. São retratos de pessoas minimalistas, que vivem com muito pouco, quase nada, mas não largam o remo. Pena que as imagens não têm o crédito dos fotógrafos.
segunda-feira
“quem não rezou a novena de Dona Canô...”
No céu, velando por nós, Cidinha, a santa neguinha pescada do fundo de um rio; na terra, puxando nossa orelha quando fazemos malcriação, Dona Canô. Da janela azul de sua casa em Santo Amaro da Purificação, na Bahia, ela acompanha, sorridente, seus filhos brincando na rua. Aos 102 anos, continua atenta a cada movimento que fazemos, como a mãe do filme “Édipo Arrasado”, de Woody Allen, onipresente nos céus de Nova York. Quando precisa resolver um problema muito grande, Dona Canô telefona diretamente para o presidente da República. Provavelmente vai se encontrar com ele no feriado da Consciência Negra, na próxima sexta-feira (20/11), em Salvador, para limpar a barra do filho cantor.
Quando estive exilado no interior, enquanto cursava a faculdade, encontrei uma segunda mãe, muito parecida com dona Canô. Era Dona Didi, mãe de João, Nana, Isa, Zé e Dito. João estudava jornalismo em minha turma. Era sobrinho de um poeta local (o poeta municipal de que falava Drummond?), tocava violão, como seus outros irmãos, que tinham um gosto apuradíssimo por música brasileira e literatura. As irmãs cantavam.
Eu ia pouco à faculdade, pois já estava trabalhando no jornal da cidade. Depois do fechamento, ia para a casa do João, onde filava a bóia e ficava ouvindo os LPs da série editada por Marcus Pereira, revelando a música regional brasileira pouco conhecida no sudeste. Foi lá que ouvi Elomar pela primeira vez, um arquiteto que vivia no sertão, criava bodes e cantava como um menestrel. Conversávamos até tarde da noite e dona Didi estava sempre presente, sentada em sua cadeira (era de balanço?), quase sempre em silêncio. Um dia ela me disse: “Homem tem que usar barba ou bigode”. João e Zé tinham bigode e Dito, barba. Mais de trinta anos depois, quando penso em tirar a barba, lembro do conselho de Dona Didi e vacilo.
Tenho uma teoria de que temos sempre duas (ou mais) mães, que nos confortam quando a nossa está longe ou já se foi.
Quando era criança, uma vizinha de minha família, Dona Lourdes, era uma segunda mãe para nós. Era uma negra sorridente, parecida com a Ella Fitzgerald. Era ela quem matava as galinhas e os patos que minha mãe criava, mas não tinha coragem de sacrificar. Ela é madrinha de minha irmã e ficou muito abalada com a morte de minha mãe. Seu filho mais velho, Miltinho, foi o melhor goleiro que vi em ação na infância. Dava gosto vê-lo voar na direção da bola e cair macio no chão de terra batida, ressecada.
Dona Didi morreu com mais de 80 anos e minha segunda mãe, hoje, é minha última tia carioca, que ainda tem muita lenha para queimar. Mas isso não me impede de tomar emprestado Dona Canô, sempre que a saudade aperta.
Quando estive exilado no interior, enquanto cursava a faculdade, encontrei uma segunda mãe, muito parecida com dona Canô. Era Dona Didi, mãe de João, Nana, Isa, Zé e Dito. João estudava jornalismo em minha turma. Era sobrinho de um poeta local (o poeta municipal de que falava Drummond?), tocava violão, como seus outros irmãos, que tinham um gosto apuradíssimo por música brasileira e literatura. As irmãs cantavam.
Eu ia pouco à faculdade, pois já estava trabalhando no jornal da cidade. Depois do fechamento, ia para a casa do João, onde filava a bóia e ficava ouvindo os LPs da série editada por Marcus Pereira, revelando a música regional brasileira pouco conhecida no sudeste. Foi lá que ouvi Elomar pela primeira vez, um arquiteto que vivia no sertão, criava bodes e cantava como um menestrel. Conversávamos até tarde da noite e dona Didi estava sempre presente, sentada em sua cadeira (era de balanço?), quase sempre em silêncio. Um dia ela me disse: “Homem tem que usar barba ou bigode”. João e Zé tinham bigode e Dito, barba. Mais de trinta anos depois, quando penso em tirar a barba, lembro do conselho de Dona Didi e vacilo.
Tenho uma teoria de que temos sempre duas (ou mais) mães, que nos confortam quando a nossa está longe ou já se foi.
Quando era criança, uma vizinha de minha família, Dona Lourdes, era uma segunda mãe para nós. Era uma negra sorridente, parecida com a Ella Fitzgerald. Era ela quem matava as galinhas e os patos que minha mãe criava, mas não tinha coragem de sacrificar. Ela é madrinha de minha irmã e ficou muito abalada com a morte de minha mãe. Seu filho mais velho, Miltinho, foi o melhor goleiro que vi em ação na infância. Dava gosto vê-lo voar na direção da bola e cair macio no chão de terra batida, ressecada.
Dona Didi morreu com mais de 80 anos e minha segunda mãe, hoje, é minha última tia carioca, que ainda tem muita lenha para queimar. Mas isso não me impede de tomar emprestado Dona Canô, sempre que a saudade aperta.
sábado
pausa musical
Descobri esse vídeo de Elis em um especial de uma emissora de TV alemã, realizado em 1972. Ela canta "Comunicação", de Edson Alencar/ Hélio Matheus, num cenário publicitário, repleto de "signos" (como se dizia na época) da comunicação global. Detalhe para o comprimento do vestido da moça, bem mais curto que o da aluna da Uniban. Ela canta essa mesma música num especial da TV Globo, um ano antes. Impossível não se apaixonar.
O argentino (nascido na Espanha e que vive nos EUA) Emilio Teubal dá um toque muito pessoal e jazzístico a "Loro", de Egberto Gismonti. Detalhe para o gato junto do piano. Gismonti compôs essa música em homenagem a Hermeto Paschoal.
Por Falar em Hermeto, o bruxo levou seus músicos para o Vale do Ribeira e interpreta uma sinfonia ecológica. Nada mais natural para quem já "tocou" porcos e sapos. Apresentei a música de Hermeto para um jornalista suíço correspondente de uma revista alemã em São Paulo, entre os anos 80 e 90, e ele se apaixonou. Sempre que ele vinha à minha casa, ficavámos ouvindo Hermeto, Egberto Gismonti, Patativa do Assaré.
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