Não há como ficar indiferente a Vanessa da Mata. Sua figura sorridente, seus vestidos coloridos que parecem ter sido criados pelo estilista de Wong- Kar Wai (incorporado por Frida Khalo), sua voz de timbre agradável, seus versos curiosos, bem humorados, ternos. E os cabelos? Me perdoem as santas Gal e Clara, mas que cabeleira é aquela?
Ontem no Sesc Pompeia ela começou uma rápida temporada de shows que terminam neste fim de semana. Como a vida é breve, eu estava lá para embebedar a alma de imagens e sons que me podem ser imprescindíveis no futuro.Se um dia os neurônios insistirem em apagar minhas melhores recordações, que eles tenham muito trabalho para escolher o que vai ficar preservado. Num cantinho tem que ficar alguma coisa de Miles Davis (nem que seja apenas "So What"), de Tom Jobim ("Águas de Março", "Wave"?), de Nelson Cavaquinho... Mas também tem que ficar um tico de Vanessa. Nem que seja essa cabeleira.
sexta-feira
O dia em que Woody Allen virou pão de queijo
Nos anos 80 ou final dos 70, quando a criatividade rolava solta na redação do Jornal da Tarde, um copy deu o seguinte título para uma matéria sobre o sucesso de uma nova loja de pães de queijos, que hoje é uma franquia famosa: "De repente, filas para comprar pão de queijo". Os jornalistas que conhecem a história adotaram essa expressão para se refererir a qualquer coisa de sucesso de público. Pois não é que de repente as pessoas fazem filas para ver um filme de Woody Allen?
Meia-noite em Paris virou mania em São Paulo e foi visto por pessoas que amam Woddy Allen, pesssoas que o odeiam e pessoas que não sabem de quem se trata, mas ouviram falar que o filme é maravilhoso e "precisa" ser visto. Até quem foi ver outro filme e se arrependeu da escolha acaba dando a mão à palmatória: "Por que não fui ver o filme do Woody Allen?"
O filme estreou há várias semanas e ainda lota as sessões, principalmente nos fins de semana, nos horários nobres (entre 18 e 22 horas), quando ir ao cinema é o início ou o encerramento de um bom programa de fim de semana.
Dá gosto ouvir a plateia cair na gargalhada com uma piada envolvendo a testosterona exacerbada de Hemingway ou a obsessão de Salvador Dalí com rinocerontes. Ao aconselhar um colega de trabalho a ver o filme, o amigo fez uma ressalva: "Se você conhecer os personagens reais vai se divertir mais ainda". É a pura verdade.
Quem dedicou algumas horas de seu tempo para ler obras de Hemingway, Fitzgerald e T.S. Elliot, ver filmes de Luis Buñuel e contemplar quadros de Picasso e Dali ou ouvir canções de Cole Porter, certamente se divertirá mais. Que sirva de lição para o futuro: leia bons romances e poemas, acompanhe exposições de arte, ouça muito jazz porque, quem sabe, você precisará dessa experiência no futuro para poder dar boas risadas no cinema. Pelo menos, fica a sensação de que o tempo não foi perdido e a televisão desligada não fez falta alguma.
Meia-noite em Paris virou mania em São Paulo e foi visto por pessoas que amam Woddy Allen, pesssoas que o odeiam e pessoas que não sabem de quem se trata, mas ouviram falar que o filme é maravilhoso e "precisa" ser visto. Até quem foi ver outro filme e se arrependeu da escolha acaba dando a mão à palmatória: "Por que não fui ver o filme do Woody Allen?"
O filme estreou há várias semanas e ainda lota as sessões, principalmente nos fins de semana, nos horários nobres (entre 18 e 22 horas), quando ir ao cinema é o início ou o encerramento de um bom programa de fim de semana.
Dá gosto ouvir a plateia cair na gargalhada com uma piada envolvendo a testosterona exacerbada de Hemingway ou a obsessão de Salvador Dalí com rinocerontes. Ao aconselhar um colega de trabalho a ver o filme, o amigo fez uma ressalva: "Se você conhecer os personagens reais vai se divertir mais ainda". É a pura verdade.
Quem dedicou algumas horas de seu tempo para ler obras de Hemingway, Fitzgerald e T.S. Elliot, ver filmes de Luis Buñuel e contemplar quadros de Picasso e Dali ou ouvir canções de Cole Porter, certamente se divertirá mais. Que sirva de lição para o futuro: leia bons romances e poemas, acompanhe exposições de arte, ouça muito jazz porque, quem sabe, você precisará dessa experiência no futuro para poder dar boas risadas no cinema. Pelo menos, fica a sensação de que o tempo não foi perdido e a televisão desligada não fez falta alguma.
som e fúria
Coloquei na parte de cima do blog um gadget com vídeos do Youtube com jazzistas bons de bola (o que talvez seja uma redundância). É uma pausa musical de qualidade quando o texto está ausente ou quando ele é tão fraquinho, que se envergonha de dar as caras.
Como o programa busca os vídeos aleatoriamente, seguindo palavras chaves (No caso o nome de músicos), é possível que os vídeos se renovem com frequência. Hoje, por exemplo, entraram alguns com músicas do álbum Kind of Blue, do Miles Davis, que completou 50 anos e é de uma beleza sublime. Mas outros músicos aparecerão por aqui porque eu vou ampliar o repertório do blog. Para quem gosta de ler e ouvir boa música de fundo, é uma trilha sonora privilegiada. O difícil é colocar letrinhas que sejam boas companheiras.
Como o programa busca os vídeos aleatoriamente, seguindo palavras chaves (No caso o nome de músicos), é possível que os vídeos se renovem com frequência. Hoje, por exemplo, entraram alguns com músicas do álbum Kind of Blue, do Miles Davis, que completou 50 anos e é de uma beleza sublime. Mas outros músicos aparecerão por aqui porque eu vou ampliar o repertório do blog. Para quem gosta de ler e ouvir boa música de fundo, é uma trilha sonora privilegiada. O difícil é colocar letrinhas que sejam boas companheiras.
quinta-feira
atração pelo abismo
Tenho verdadeira atração por filmes ruins. Vi Fúria Sobre Rodas e posso garantir: o filme é impagavelmente ruim. Isso não me impediu de prever que seria o campeão de bilheteria no fim de semana de estreia no Brasil. Como também acredito que o fato de ter estourado a boca do balão não significa que todas as 140 mil pessoas que o assistiram gostaram do que viram na tela.
No Brasil, filmes de ação (sejam bons ou ruins) sempre rendem bilheteria. Conheço gente que sai do cinema reconhecendo que o filme é ruim de doer, mas não se lamenta de ter perdido quase duas horas de seu tempo e ter ficado uns 20 reais mais pobre. Parece que o desafio de suportar bravamente roteiros medíocres, atuações pavorosas e cenários toscos é uma espécie de sacríficio a que é obrigada a se submeter. Como se estivesse pagando algum pecado ou tivesse feito algo inominável na encarnação pregressa.
Vou além na minha análise: ver filme ruim é uma espécie de Nosso Lar (filme também horrível) desse suposto pecador. Ou seja, é aquele pântano que ele tem de chafurdar antes de alcançar o aprimoramento pleno de sua alma. Por desenvolvimento espiritual pleno, entenda-se estar pronto para ver filmes de Bergman, Truffaut, Kurosawa, Nelson Pereira dos Santos.
Sei que o sofrimento é grande, mas se esse é o preço para se estar pronto para receber a iluminação de espíritos cinematográficos de grandeza, acho que vale a pena.
No meu caso, que sonho um dia chegar ao Nosso Bar e não ao Nosso Lar, assistir filme ruim é uma espécie de esporte grotesco, como jogar futebol com bola furada ou rebater bola de tênis com raquete quebrada. É um desafio de superação. Estou testando até onde posso aguentar sem correr risco cerebral grave e permanente.
E Nicolas Cage tem sido um companheiro insuperável. Ela nunca me decepciona: tenho certeza de que o próximo filme dele será sempre o pior.
No Brasil, filmes de ação (sejam bons ou ruins) sempre rendem bilheteria. Conheço gente que sai do cinema reconhecendo que o filme é ruim de doer, mas não se lamenta de ter perdido quase duas horas de seu tempo e ter ficado uns 20 reais mais pobre. Parece que o desafio de suportar bravamente roteiros medíocres, atuações pavorosas e cenários toscos é uma espécie de sacríficio a que é obrigada a se submeter. Como se estivesse pagando algum pecado ou tivesse feito algo inominável na encarnação pregressa.
Vou além na minha análise: ver filme ruim é uma espécie de Nosso Lar (filme também horrível) desse suposto pecador. Ou seja, é aquele pântano que ele tem de chafurdar antes de alcançar o aprimoramento pleno de sua alma. Por desenvolvimento espiritual pleno, entenda-se estar pronto para ver filmes de Bergman, Truffaut, Kurosawa, Nelson Pereira dos Santos.
Sei que o sofrimento é grande, mas se esse é o preço para se estar pronto para receber a iluminação de espíritos cinematográficos de grandeza, acho que vale a pena.
No meu caso, que sonho um dia chegar ao Nosso Bar e não ao Nosso Lar, assistir filme ruim é uma espécie de esporte grotesco, como jogar futebol com bola furada ou rebater bola de tênis com raquete quebrada. É um desafio de superação. Estou testando até onde posso aguentar sem correr risco cerebral grave e permanente.
E Nicolas Cage tem sido um companheiro insuperável. Ela nunca me decepciona: tenho certeza de que o próximo filme dele será sempre o pior.
segunda-feira
quarta-feira
escritores ou inscritores
Luís Antônio Giron é um ótimo jornalista e escritor. Grande conhecedor de música clássica e popular, escreveu uma bela biografia sobre Mário Reis (Mário Reis - o fino do samba). Às vezes o encontro em cabines de cinema (sessões de filmes para críticos e jornalistas) e concertos. Gosta de uma polêmica e não teme emitir sua opinião. Mas, ao contrário de tantos "colunistas" polêmicos que hoje campeiam pelas páginas dos jornais e revistas, seus artigos sempre tem substância. Valem a pena ser lidos e discutidos.
Ontem, no site da revista época, ele tocou num vespeiro: os critérios dos concursos literários brasileiros que premiam sempre as mesmas pessoas, deixando de reconhecer os novos talentos. Recomendo a leitura.
Escritores ou inscritores?
Ontem, no site da revista época, ele tocou num vespeiro: os critérios dos concursos literários brasileiros que premiam sempre as mesmas pessoas, deixando de reconhecer os novos talentos. Recomendo a leitura.
Escritores ou inscritores?
terça-feira
ritmo
"Que eu me desenrole nas páginas e não me complique nos parágrafos, que eu não tropece nos velhos erros e que os braços acompanhem o ritmo das pernas. "
Ilana Copque
Ilana Copque
olhos verdes
Deu no Diário de Pernambuco:
A polêmica em torno do Prêmio Jabuti de Livro do Ano, na categoria ficção, dado ao romance Leite derramado, de Chico Buarque, tem colocado em evidência os interesses comerciais e ideológicos que existem por trás dos concursos literários. Em meio ao confronto entre dois gigantes do mercado editorial (Record X Companhia das Letras), deflagrado este ano via declarações, artigos veiculados na imprensa nacional e petições entre fãs e opositores de Chico, o Diario resolveu investigar como funcionam os três principais prêmios de literatura do país.
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A polêmica em torno do Prêmio Jabuti de Livro do Ano, na categoria ficção, dado ao romance Leite derramado, de Chico Buarque, tem colocado em evidência os interesses comerciais e ideológicos que existem por trás dos concursos literários. Em meio ao confronto entre dois gigantes do mercado editorial (Record X Companhia das Letras), deflagrado este ano via declarações, artigos veiculados na imprensa nacional e petições entre fãs e opositores de Chico, o Diario resolveu investigar como funcionam os três principais prêmios de literatura do país.
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sexta-feira
Eu fui a Penha pedir à Padroeira para me ajudar
Vista assim do alto, mais parece o céu no chão.....
A primeira foto está no blog Fotos Maravilhosas
O campo de batalha é de Marcelo Sayad, da agência EFE
A primeira foto está no blog Fotos Maravilhosas
O campo de batalha é de Marcelo Sayad, da agência EFE
quarta-feira
quase certeza, quase um tuiter
Ninguém me tira da cabeça que foram os votos dos fumantes que decidiram a eleição.
segunda-feira
vamos para os pênaltis
Todo corintiano sabe que nada é fácil. As bolas batem na trave, passam triscando e os gols demoram a aparecer. Às vezes entram no último minuto, às vezes nem isso. Mas, confiamos nos nossos batedores de pênalti. Ainda dá para levantar a taça.
terça-feira
noir veneziano
Notas para a criação de um detetive noir: um gondoleiro veneziano que divide seu tempo entre conduzir turistas em sua gôndola e desvendar crimes.
Nome: Nino
Características pessoais: Barrigudo (bom disfarce para um detetite), careca e com o rosto marcado por crateras deixadas por uma adolescência infestada por acnes. Quando está sozinho em sua gôngola, costuma cantar canções napolitanas, que ouvia da mãe, uma enfermeira apaixonada por Ugo Tognazzi.
Prato predileto: pasta e fagioli (prato típico veneziano, a base de feijão e macarrão). Bebe cerveja Moretti, birra muito popular na Itália.
Informantes: Nino usa como informantes vendedores do mercado de peixe (costuma ser rápido nas conversas, pois o cheiro do local é insuportável), um negro que vende óculos escuros perto na estação ferroviária (mas é uma fonte difícil de ser localizada, pois está sempre fugindo da polícia, com medo de ser deportado), um fiscal de vaporeto e um restaurador de quadros, especializado em Tintoreto.
Clientes: Como em toda história noir, seus clientes são mulheres deslumbrantes (perfil no qual se encaixam quase todas as italianas a partir dos 12 anos de idade), que tiveram o marido assassinado por algum misterioso personagem ligado à Mafia.
Devido ao seu porte físico avantajado, encontra dificuldades na tarefa de seguir suspeitos. O fato de se deslocar com uma gôndola, também não ajuda muito, pois é sempre obrigado a parar a investigação para receber passageiros. Se não fizer isso, pode ter sua licença suspensa pelas autoridades. Por esse motivo nunca conseguiu solucionar um caso sequer durante o verão (mas nunca volta de bolsos vazios para casa).
Nino mora numa espelunca (uma água furtada parece ser ideal), onde divide o espaço com um gato que sobreviveu a três quedas no Grande Canal. Desde então, o felino se recusa a deixar o quarto e só sai da cama para usar sua caixinha de areia. O bicho ficou tão gordo quanto o dono e tem dificuldades respiratórias, o que o obriga a respirar de boca aberta. Nino, que tem pouco tempo livre, sente a consciência pesada por não poder cuidar melhor do animal.
Segue.....
Nome: Nino
Características pessoais: Barrigudo (bom disfarce para um detetite), careca e com o rosto marcado por crateras deixadas por uma adolescência infestada por acnes. Quando está sozinho em sua gôngola, costuma cantar canções napolitanas, que ouvia da mãe, uma enfermeira apaixonada por Ugo Tognazzi.
Prato predileto: pasta e fagioli (prato típico veneziano, a base de feijão e macarrão). Bebe cerveja Moretti, birra muito popular na Itália.
Informantes: Nino usa como informantes vendedores do mercado de peixe (costuma ser rápido nas conversas, pois o cheiro do local é insuportável), um negro que vende óculos escuros perto na estação ferroviária (mas é uma fonte difícil de ser localizada, pois está sempre fugindo da polícia, com medo de ser deportado), um fiscal de vaporeto e um restaurador de quadros, especializado em Tintoreto.
Clientes: Como em toda história noir, seus clientes são mulheres deslumbrantes (perfil no qual se encaixam quase todas as italianas a partir dos 12 anos de idade), que tiveram o marido assassinado por algum misterioso personagem ligado à Mafia.
Devido ao seu porte físico avantajado, encontra dificuldades na tarefa de seguir suspeitos. O fato de se deslocar com uma gôndola, também não ajuda muito, pois é sempre obrigado a parar a investigação para receber passageiros. Se não fizer isso, pode ter sua licença suspensa pelas autoridades. Por esse motivo nunca conseguiu solucionar um caso sequer durante o verão (mas nunca volta de bolsos vazios para casa).
Nino mora numa espelunca (uma água furtada parece ser ideal), onde divide o espaço com um gato que sobreviveu a três quedas no Grande Canal. Desde então, o felino se recusa a deixar o quarto e só sai da cama para usar sua caixinha de areia. O bicho ficou tão gordo quanto o dono e tem dificuldades respiratórias, o que o obriga a respirar de boca aberta. Nino, que tem pouco tempo livre, sente a consciência pesada por não poder cuidar melhor do animal.
Segue.....
quarta-feira
coração centenário
Me considero um sujeito de sorte. Se tivesse descendentes, poderia reuni-los numa noite de outono (a melhor estação do ano), provavelmente em abril (o mês mais sonoro do ano) para dizer-lhes como sou felizardo por ter desembarcado nesse planeta e ter sido testemunha de pelo menos quatro fatos que não mais se repetirão na história da humanidade:
1)Comício das Diretas - Eu passei pelo Comício das Diretas Já,no Anhangabau, depois de sair do trabalho, no prédio dos Diários Associados. Peguei o elevador no 11º andar (ou seria o sétimo?), cumprimentei Carioca, o ascensorista paraibano que tinha por hábito aparar as unhas com um canivete, e caminhei da rua 7 de Abril até o Viaduto do Chá, passando pelo Mappin e pelo Teatro Municipal. O movimento era típico do centro à noite, quando as pessoas ainda iam ao cinema, às compras ou tomavam um último gole antes de voltar para casa. Me debrucei sobre as muretas do Viaduto do Chá, como num camarote do Teatro Municipal, e vi aquela massa humana, calculada em cerca de 1 milhão de pessoas. Não lembro se foi antes, ou depois, que assisti a um show do baterista Art Blakey, talvez o último que fez no Brasil, naquele mesmo teatro, naquela hora vazio.
Já tinha passado pelo mesmo viaduto, não sei se meses ou anos antes, também saindo do trabalho, no mesmo edifício da 7 de Abril, depois de uma passeata de estudantes. Havia uma névoa formada pelos gases das bombas que haviam sido lançadas pela polícia. Foi a primeira vez que senti cheiro de gás lacrimogêneo. Havia uma tensão no ar, mas naquele momento apenas os transeuntes caminhavam apressados pelo viaduto. Eu era um deles.
2) Cometa Halley - O cometa Halley, que passa pela Terra a cada 76 anos, me envaideceu ao voltar em 1986. Não vi sua cauda ou cabeleira pois a poluição de São Paulo cobre nossa visão do céu com um manto negro intransponível. Mas cheguei a escrever uma matéria para uma revista sobre o visitante ilustre. Talvez meu avô o tenha visto em 1910, em sua penúltima passagem pela Terra. Na roça, onde vivia, sua visão foi mais privilegiada que a minha.
3) O show Falso Brilhante - Vi o show de Elis Regina no Tuca, em 1976, e me arrependi de não ter assistido Trem Azul. Nunca mais a vi no palco. Quando ela morreu, em 1982, minha mãe me ligou para saber como eu estava. Eu ainda trabalhava no mesmo prédio dos Diários Associados. A namorada de um amigo que trabalhava comigo, reporter da rádio Globo, havia dado a notícia minutos antes. Jovem e intrépida, burlou a segurança dizendo que era da família e constatou que os rumores eram verdadeiros. Vi na televisão a multidão que parou a avenida Brigadeiro Luis Antonio no velório realizado no Teatro Bandeirantes. Fiquei muitos anos sem ouvir os LPs dela.
4 - Centenário do Corinthians - Ontem, à meia noite, ouvi uma grande queima de fogos, digna de final de campeonato. Não estava mais no prédio dos Diários Associados, que ficou para trás, mas em minha casa, assistindo a um DVD. Eram os corintianos do bairro que comemoravam o centenário de fundação do clube. A cena se repetiu em toda a cidade. Meu coração também bateu mais forte. Eu era personagem da história.
1)Comício das Diretas - Eu passei pelo Comício das Diretas Já,no Anhangabau, depois de sair do trabalho, no prédio dos Diários Associados. Peguei o elevador no 11º andar (ou seria o sétimo?), cumprimentei Carioca, o ascensorista paraibano que tinha por hábito aparar as unhas com um canivete, e caminhei da rua 7 de Abril até o Viaduto do Chá, passando pelo Mappin e pelo Teatro Municipal. O movimento era típico do centro à noite, quando as pessoas ainda iam ao cinema, às compras ou tomavam um último gole antes de voltar para casa. Me debrucei sobre as muretas do Viaduto do Chá, como num camarote do Teatro Municipal, e vi aquela massa humana, calculada em cerca de 1 milhão de pessoas. Não lembro se foi antes, ou depois, que assisti a um show do baterista Art Blakey, talvez o último que fez no Brasil, naquele mesmo teatro, naquela hora vazio.
Já tinha passado pelo mesmo viaduto, não sei se meses ou anos antes, também saindo do trabalho, no mesmo edifício da 7 de Abril, depois de uma passeata de estudantes. Havia uma névoa formada pelos gases das bombas que haviam sido lançadas pela polícia. Foi a primeira vez que senti cheiro de gás lacrimogêneo. Havia uma tensão no ar, mas naquele momento apenas os transeuntes caminhavam apressados pelo viaduto. Eu era um deles.
2) Cometa Halley - O cometa Halley, que passa pela Terra a cada 76 anos, me envaideceu ao voltar em 1986. Não vi sua cauda ou cabeleira pois a poluição de São Paulo cobre nossa visão do céu com um manto negro intransponível. Mas cheguei a escrever uma matéria para uma revista sobre o visitante ilustre. Talvez meu avô o tenha visto em 1910, em sua penúltima passagem pela Terra. Na roça, onde vivia, sua visão foi mais privilegiada que a minha.
3) O show Falso Brilhante - Vi o show de Elis Regina no Tuca, em 1976, e me arrependi de não ter assistido Trem Azul. Nunca mais a vi no palco. Quando ela morreu, em 1982, minha mãe me ligou para saber como eu estava. Eu ainda trabalhava no mesmo prédio dos Diários Associados. A namorada de um amigo que trabalhava comigo, reporter da rádio Globo, havia dado a notícia minutos antes. Jovem e intrépida, burlou a segurança dizendo que era da família e constatou que os rumores eram verdadeiros. Vi na televisão a multidão que parou a avenida Brigadeiro Luis Antonio no velório realizado no Teatro Bandeirantes. Fiquei muitos anos sem ouvir os LPs dela.
4 - Centenário do Corinthians - Ontem, à meia noite, ouvi uma grande queima de fogos, digna de final de campeonato. Não estava mais no prédio dos Diários Associados, que ficou para trás, mas em minha casa, assistindo a um DVD. Eram os corintianos do bairro que comemoravam o centenário de fundação do clube. A cena se repetiu em toda a cidade. Meu coração também bateu mais forte. Eu era personagem da história.
domingo
verão
De todas as versões de Estate, gosto mais da de João Gilberto, apesar do seu italiano de novela da Globo. Mas cada uma das que eu selecionei tem alguma coisa particular, seja na interpretação, na voz do cantor ou no balanço jazzistico dessa bela canção. Se eu tocasse violão, aprenderia os acordes.
sexta-feira
um autêntico Mário Viana
Mário Viana falando e Mário Viana escrevendo são absolutamente iguais. A piada rápida, a sacada esperta com que brinda os amigos nas rodas de conversas, são transpostas para seu texto de forma natural. Tenho grande dificuldade em escrever diálogos, pois quando os leio em voz alta soam muito artificiais. Por mais que me esforce para tornar o texto mais próximo do registro oral, não fico satisfeito. Mas o Mário é um exímio lapidador de diálogos. Me lembro muito das tiradas rápidas do Woody Allen, que emenda uma piada na outra e explora o politicamente incorreto. É difícil imaginar o humor sem o politicamente incorreto.
Fui ver "Vamos?" a nova peça que Mário estreou há uma semana, num dia frio, com teatro lotado. Nesse dia, ele comemorava o feito de ter cinco peças simultaneamente em cartaz. E todas com boa resposta do público e da crítica. De todas as peças às quais assisti, "Vamos?" é a mais divertida. Acho que Mário chegou próximo da fórmula perfeita.
E a montagem, assinada por por Otávio Martins, tira proveito de um elenco bem entrosado que até parece fazer parte de uma companhia estável.
A história é simples e nasce de uma pergunta que muita gente já se fez: por que duas pessoas que são amigas não podem ir para a cama? Quem disse que isso arruinaria a amizade? Ao colocar dois casais em cena, com os mesmos interesses, Mário abre espaço para que a pergunta seja respondida. O resultado é um jogo divertido, em clima de comédia de erros e de stand up. Aconselho levar um caderninho para anotar as piadas e contá-las depois para os amigos. Ou então voltar para rir com as piadas novas que, com certeza, serão incorporadas.
Fui ver "Vamos?" a nova peça que Mário estreou há uma semana, num dia frio, com teatro lotado. Nesse dia, ele comemorava o feito de ter cinco peças simultaneamente em cartaz. E todas com boa resposta do público e da crítica. De todas as peças às quais assisti, "Vamos?" é a mais divertida. Acho que Mário chegou próximo da fórmula perfeita.
E a montagem, assinada por por Otávio Martins, tira proveito de um elenco bem entrosado que até parece fazer parte de uma companhia estável.
A história é simples e nasce de uma pergunta que muita gente já se fez: por que duas pessoas que são amigas não podem ir para a cama? Quem disse que isso arruinaria a amizade? Ao colocar dois casais em cena, com os mesmos interesses, Mário abre espaço para que a pergunta seja respondida. O resultado é um jogo divertido, em clima de comédia de erros e de stand up. Aconselho levar um caderninho para anotar as piadas e contá-las depois para os amigos. Ou então voltar para rir com as piadas novas que, com certeza, serão incorporadas.
terça-feira
quase...
Jabulani, vítima de maus tratos na África
quinta-feira
o cão vermelho
Quando era criança tive cachorros, agora tenho gatos. Mas nunca deixei de simpatizar com os caninos, principalmente depois de ler Jack London e de observar nas ruas os cães que seguem seus donos sem teto e se esquentam em baixo de alguma marquise, no chão forrado com papelão. Eles sabem que o homem enfrenta dificuldades e por isso dividem seu espaço e até sua comida com ele.
Mas nunca havia visto um cão revolucionário, como Lukanikos, o vira-lata grego que acompanha os manifestantes em seus protestos contra a crise econômica do país e enfrenta a polícia sem medo. Os manifestantes se protegem com lenços molhados e máscaras contra gás, mas Luka vai com o focinho e a coragem. Já vi por aqui labradores, com um lenço com a estampa de Che Guevara no pescoço, mas não traziam nos olhos aquela chama ardente de clamor por justiça e solidariedade, como vemos em Lukanikos. Mais pareciam ex-comunistas gordos atracados em algum bom cargo público, como navios com o casco enferrujado e que nunca mais voltarão ao mar.
Se eu tivesse um cão, queria que fosse como Luka (já até abreviei seu nome), destemido e amigo dos mais fracos. Na verdade um cão humanista do qual pudesse receber o conforto nos momentos dificeis. Provavelmente não o levaria para passeatas (já respirei minha dose de gás lacrimogêno na juventude), mas ele dividiria comigo a leitura dos jornais. Tenho certeza que latiríamos em concordância nas páginas do noticiário político.
domingo
outra chance para as mães
Esperei o final desse dia chuvoso para falar sobre o tema.
Que falta faz uma mãe, principalmente para filhos edipianos. Quem vai nos dizer que somos os melhores?
Quem levou a mãe hoje para almoçar fora, fez uma má ação, pois os restaurantes estavam cheios, o serviço estava péssimo e elas mereciam ter comido coisa melhor que as bracciolas com macarrão mole.
Então, no ano que vem, para compensar a bola fora de hoje, preparem vocês mesmos o almoço, encham a casa de flores e não desgrudem delas um minuto sequer, para serem merecedores daqueles elogios de que tanto precisamos para atravessar a rua diariamente.
No ano passado foi assim
Que falta faz uma mãe, principalmente para filhos edipianos. Quem vai nos dizer que somos os melhores?
Quem levou a mãe hoje para almoçar fora, fez uma má ação, pois os restaurantes estavam cheios, o serviço estava péssimo e elas mereciam ter comido coisa melhor que as bracciolas com macarrão mole.
Então, no ano que vem, para compensar a bola fora de hoje, preparem vocês mesmos o almoço, encham a casa de flores e não desgrudem delas um minuto sequer, para serem merecedores daqueles elogios de que tanto precisamos para atravessar a rua diariamente.
No ano passado foi assim
Você viu o novo filme do Woody Allen?
Fui ver no fim de semana Tudo Pode Dar Certo, de Woody Allen. Deu um sabor especial chegar à bilheteria e pedir: "um ingresso para o filme do Woody Allen" e o funcionário entregar o bilhete para o filme certo. Um homem que estava atrás de mim na fila fez o mesmo pedido. Em outro cinema, tenho quase certeza que o atendente não saberia de qual filme se tratava. Essa é a diferença entre ir ao Unibanco e à LIvraria Cultura ou ir a um multiplex da vida e a uma livraria comum.
Gostei do filme, principalmente dos diálogos saborosos e extremamente rápidos. Estava com o Mário Viana e ele fez um comentário que, pensando bem, resume o filme: "Esse é um roteiro antigo do Woody Allen". Nada a ver com a fase europeia do diretor, com temas mais elaborados (Match Point) ou completamente alucinados (Vicky Cristina Barcelona).
De certa forma, Tudo Pode dar Certo tem uma pegada à la Annie Hall, com uma linda mulher tontinha por quem é muito fácil se apaixonar, piadas rápidas e o recurso do personagem falar com a plateia. Está certo que Boris Yellnikoff, o personagem interpretado por Larry David, é uma mala sem alça, em nada lembrando Woody Allen em situações semelhantes. Se Woody interpretasse Boris, não conseguiria ser tão desprezível quanto David. Mas o diretor quer que impliquemos com Boris. Talvez esse seja seu alter ego.
O filme parece realmente antigo e até algumas das referências são datadas, da época em que Allen ainda filmava em Nova York. Mesmo assim, o filme tem momentos muito engraçados. Mesmo sendo um filme menor do diretor é muito melhor que muitos avatares da vida. É o tipo de filme para comentar com os amigos, relembrar as piadas e tentar não esquecê-las no dia seguinte. Na segunda-feira de manhã, antes de ligar o computador para começar o trabalho, você pode dizer aos colegas do escritório: "fui ver o último filme de Woody Allen". E todo mundo vai se interessar para saber dos detalhes e ninguém vai querer perder a chance de assisti-lo. E isso renderá assunto para muitos dias seguidos. Quando Fellini era vivo, era a mesma coisa.
Gostei do filme, principalmente dos diálogos saborosos e extremamente rápidos. Estava com o Mário Viana e ele fez um comentário que, pensando bem, resume o filme: "Esse é um roteiro antigo do Woody Allen". Nada a ver com a fase europeia do diretor, com temas mais elaborados (Match Point) ou completamente alucinados (Vicky Cristina Barcelona).
De certa forma, Tudo Pode dar Certo tem uma pegada à la Annie Hall, com uma linda mulher tontinha por quem é muito fácil se apaixonar, piadas rápidas e o recurso do personagem falar com a plateia. Está certo que Boris Yellnikoff, o personagem interpretado por Larry David, é uma mala sem alça, em nada lembrando Woody Allen em situações semelhantes. Se Woody interpretasse Boris, não conseguiria ser tão desprezível quanto David. Mas o diretor quer que impliquemos com Boris. Talvez esse seja seu alter ego.
O filme parece realmente antigo e até algumas das referências são datadas, da época em que Allen ainda filmava em Nova York. Mesmo assim, o filme tem momentos muito engraçados. Mesmo sendo um filme menor do diretor é muito melhor que muitos avatares da vida. É o tipo de filme para comentar com os amigos, relembrar as piadas e tentar não esquecê-las no dia seguinte. Na segunda-feira de manhã, antes de ligar o computador para começar o trabalho, você pode dizer aos colegas do escritório: "fui ver o último filme de Woody Allen". E todo mundo vai se interessar para saber dos detalhes e ninguém vai querer perder a chance de assisti-lo. E isso renderá assunto para muitos dias seguidos. Quando Fellini era vivo, era a mesma coisa.
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