quarta-feira

Maui e Ilana

Maui é a da direita, sem óculos.

Eu acredito no Deus dos gatos. Quando tudo parece perdido para eles, eis que ocorre um milagre. A vida desses bichos está repleta de pequenos milagres. Às vezes eles ocorrem à luz do dia, à beira de uma estrada de Petrolina, por onde passam automóveis e caminhões, romeiros arrastando cruz, homens que venderam a alma ao diabo numa encruzilhada deserta. Os locais perigosos e ermos e os mais mal frequentados são sempre os mais propícios para as aparições divinas. Falo do Deus dos gatos, evidentemente. Maui é testemunha de um milagre. Se não o carro no qual viajava sua salvadora não quebraria a poucos metros de onde ela estava.

Hoje, ela dorme numa cama quente e não precisa perambular mais pelas ruas cobertas de pó, onde os poucos restos de comida encontrados são disputados por crianças esfarrapadas e sem nenhum Deus que cuide delas. A dona de Maui não sabe que não existe o acaso na vida de humanos e felinos, que eram deuses em outras eras e se comportavam como tais. Ela também não sabe que, a partir de agora, sua vida ganhará outro rumo. Com um desses pequenos e antigos deuses andando sem cerimônias por seu apartamento, ela será testemunha de pequenas transformações à sua volta: estará mais atenta a quem precisa de sua proteção, receberá cargas de energia nos momentos em que estiver triste e desanimada; dará muitas risadas com algumas perantices de sua mascote; terá alguém com quem conversar e trocar confidências; ganhará uma fonte nova de inspiração para seus escritos e uma ouvinte atenta para suas histórias. E essas histórias certamente se enriquecerão com a formação de uma nova dupla literária. A mais jovem toma leite e a mais experiente talvez já tenha descoberto que existem bebidas melhores que coca-cola.

terça-feira

Yes, we can... eat rucula


Fiquei sabendo hoje pelo blog Literatura Cotidiana, onde escreve o Marco Bogato, que o Obama quase perdeu a eleição porque come rúcula. Fui pego de surpresa e pesquisei na internet algumas referências sobre o assunto. Durante a campanha Obama comentou, num estado produtor de milho, que o preço da rúcula estava os olhos da cara (the eyes on the face). Bastou para que os mais conservadores americanos o chamassem de elitista. Um político ligado a Bush pai disse que precisou procurar o que era rúcula no dicionário. Me espanta que ele soubesse a utilidade de um dicionário, além de substituir pés quebrados de camas ou servir de suporte para o monitor de computadores.

Nos EUA, candidato que honra o nome e as calças tem de comer aqueles horrorosos e gordurentos churrascos de hamburguer, regados de cerveja aguada, quase choca. É como nossos candidatos que só mostram a força de seu caráter quando sentam num aprazível botequim e degustam uma saudável buchada de bode, com o suor escorrendo em bicas pela fronte.

Pobre Obama, homem elegante, casado com uma bela mulher (as americanas invejam seus braços longos e firmes) e pai de duas lindas filhas, que arrumam sozinhas a cama e ajudam a lavar os pratos depois do jantar. Fico imaginando o cardápio da família, que não deve ser divulgado para não assustar ainda mais os eleitores conservadores.

No Brasil, a rúcula é bem popular e pode ser encontrada em duas versões: a hidropônica (cultivada em água com nutrientes) e a tradicional, que cria raízes na terra. Eu prefiro a que brota da terra, cujo gosto é um pouco mais amargo, mas mais saboroso, principalmente com tomates, regada a azeite e limão.

domingo

[primeiro, matam nossos girassóis...]


Apenas um campo de combustível?

[o progresso, decididamente, parece ser inimigo da beleza e da poesia. Brecht alertava que, enquanto dormimos, inimigos invisíveis se aproximam e pisam nas flores de nosso jardim e avançam gradativamente em suas crueldades. Na cidade de Novo dos Parecis (MT), máquinas gigantescas estão pisando e esmagando um campo amarelo de girassóis para transformar essas flores imortalizadas por Van Gogh em óleo comestível e biodiesel.

Li a notícia no jornal Valor Econômico de quinta-feira (30/7). E, ilustrando o texto, uma foto do campo, com as flores do sol espetadas na ponta de caules firmes com seu gigantesco olho amarelo observando o fotógrafo, mas ainda não cientes do perigo que correm. Na visão moderna do pintor holandês, o quadro poderia estar representado por embalagens de óleo ou por caminhões se movimentando nas estradas, movidos pelo combustível ecológico. Lembrei dos bebês focas do Canadá, sacrificados por serem belos e frágeis.

Quando os artistas semeiam o campo, os investidores chegam com suas máquinas; quando as flores desabrocham, são ceifadas e esmagadas. Por que o belo tem que ser sacrificado? Por que a beleza tem que ser fugaz? Deixem as flores morrerem de velhice, deixem-nas perderem as pétalas, uma a uma, e cumprirem seu ciclo. Façam combustível da mamona, da soja e de outras plantas que nunca abriram olhos tão grandes e deslumbrados para o mundo. E nunca inspiraram poetas e artistas. Poupem essas fontes de beleza e deixem que sejam lembradas pela maciez de suas pétalas, pelo design de suas formas e por suas cores quentes. Deixem que elas alegrem os campos e nos façam esquecer da aridez das cidades. Deixem que elas simplemente existam com a única finalidade de nos encantarem.]

quinta-feira

[um ônibus sai do alabama e passa por goiás]

Em 1955, Rosa Parks estava nesse ônibus, que circulou na quarta-feira em Rio Verde, Goiás.

[depois do protesto dos executivos em São Paulo que ergueram barricadas nas ruas com suas pastas 007 e notebooks com conexão wireless, contra a proibição de ônibus fretados em alguns bairros da cidade, foi a vez de uma voz solitária, de uma mulher persistente de Rio Verde (GO) fazer valer seus direitos, lembrando a resistência pacífica de Gandhi. Mesmo longe do congestionado trânsito paulistano, por coincidência o motivo do protesto da aposentada Luzia Jesus de Oliveira, de 60 anos, foi também o transporte coletivo.

Ela entrou no ônibus e exigiu não pagar a passagem por ter 60 anos e direito a receber esse benefício legal. O motorista não concordou e pediu que ela descesse. Suponho que educadamente. Ela bateu o pé: não. O motorista também foi cascudo: então ele não sairia do lugar pois recebera ordens da empresa de não permitir a carteirada de idosos. Ela não arredou pé. Os demais passageiros, já atrasados em seus compromissos, saíram do ônibus. Ela ficou sozinha em seu assento, o motorista no dele. Creio que houve um silêncio abissal entre ambos, até a chegada dos jornalistas (diplomados e não diplomados), com sua parafernália de câmeras, microfones, rotativas, estilingues (para autodefesa, claro) e bolas de gude. Se fosse no boxe seria uma luta fadada a terminar em empate técnico; se fosse no xadrez, a partida teria que ser interrompida e reiniciada no dia seguinte. Mas o palco era uma cidade brasileira e o motorista sacou sua última carta, digna de países localizados abaixo da linha do Equador: "vou chamar a polícia".

Dona Luzia não se intimidou, como não se intimidaram os engravatados e as mulheres de terninho de São Paulo, equilibradas em saltos que só perdiam em altura para o Edifício Itália. Pois chame, que eu não sou estudante da USP (na verdade quem usou esse argumento irrefutável foram os manifestantes paulistanos, lembrando sutilmente que a tropa chamada pela reitora baixou o porrete nos alunos da USP em greve). Só faltou o rádio do ônibus tocar o Hino Nacional, pois o que ela falou naquela hora estava carregado de fervor cívico, salve, salve: "Estou aqui para defender minha classe. Não só os idosos de Rio Verde, mas de qualquer lugar do Brasil. Eles têm que aprender a respeitar a terceira idade".

Uma funcionária do serviço de trânsito da cidade, Idelma Lopes da Silva, interveio com a força de seu cargo: "Você leva a moça até o destino dela. Se alguém da empresa questionar, você diz que é ordem da Secretaria Municipal de Transportes". O motorista, imortalizado pelas câmeras de TV no papel de vilão dessa novela rioverdana (até sua mãe o odiou naquele momento), engatou a primeira. O motor do ônibus roncou preguiçosamente, a porta foi fechada e Dona Luzia seguiu sua viagem, gratuita, até seu destino. Ela estava atrasada, mas saiu de alma lavada e engomada com anil. Ela abriu a janela, sorriu e fez um sinal de positivo com o polegar da mão esquerda (será que, além do mais, ela é canhota?) para delírio de fotógrafos e cinegrafistas que colocaram Rio Verde em horário nobre.

Há 54 anos, Rosa Parks, uma costureira negra que se recusou a dar seu lugar a um passageiro branco, num ônibus na cidade de Montgomery, no Alabama, desencadeou um movimento de boicote contra o transporte coletivo da cidade e fortaleceu o movimento dos direitos civis nos Estados Unidos e a luta contra o segregacionismo. Hoje o ônibus no qual Rosa Parks foi barrada pode ser visto em um museu. O ônibus de dona Luzia circula livremente por Rio Verde, levando outras pessoas idosas que, a partir de agora, se sentirão apoiadas para também reivindicar seus direitos.]

quarta-feira

[protesto de salto alto]

[o jornalista e escritor Gay Talese recomenda que os repórteres devem praticar o legswork, ou seja, o trabalho de pernas, andar pelas ruas e ver o mundo com os próprios olhos. Uma canção do Milton Nascimento já dizia sabiamente: "todo artista deve ir aonde o povo está". Quando eu trabalhava em redações, os chefes de reportagem literalmente nos expulsavam e nos mandavam procurar notícias nas ruas.

E saíamos. Às vezes dava tempo até de ir ao cinema ou tomar uma cerveja com o fotógrafo enquanto batíamos perna ou rodávamos sem destino pela cidade no carro de reportagem, como policiais em busca de ação. Nem sempre tínhamos sucesso, mas às vezes conseguíamos chegar na hora certa e no local certo de um acontecimento.

Digo tudo isso por causa de um acontecimento que teve grande destaque nos jornais de hoje de São Paulo, mas que, infelizmente, não teve a abordagem que merecia do ponto de vista jornalístico-literário: a grande manifestação contra a proibição de ônibus fretados em diversos bairros da capital. A cidade parou com os piquetes armados por senhores engravatados e mulheres de terninho e salto alto, os grandes prejudicados pela medida. Não quero falar desse assunto sob o ponto de vista político. Me interessa apenas a forma como foi tratado pelos jornais.

Foi a revolta dos executivos de classe média que, no dia-a-dia, fogem de qualquer envolvimento com polêmicas e não querem saber de confusão. Normalmente ficam à espreita, observando, ou lendo através dos jornais. Que histórias saborosas foram perdidas porque alguns jornalistas não tiveram olhos para ver. Se o trabalhador unido jamais será vencido, como dizia o bordão dos sindicatos nos anos 60 e 70, em plena ditadura, os executivos unidos certamente viram que tem muito a ganhar, além de apenas dar quórum às apresentações de power-point em suas empresas.]

terça-feira

["prepare o campo"]

[como dizem os animadores ao arranhar o microfone para o início das apresentações: ... scratch... scratch.. um-dois, testando, um-dois...

Estou de volta depois de um período em que estava praticamente sem tempo para postar coisas novas. Foi um período de trabalho pesado que acabou prejudicando o que eu mais gosto de fazer, que é escrever descompromissadamente sobre coisas que eu gosto. Ou pelo prazer de fazer tiro ao alvo com as palavras. Li as manifestações pedindo meu retorno do exílio e fiquei muito contente. Também estava sentindo falta do espaço, da troca de idéias, do aprendizado com os amigos e amigas de outros blogs. Isso me fez lembrar de um livro que virou filme (Shoeless Joe), com Kevin Costner, que foi batizado aqui de "O Campo dos Sonhos". É uma história de realismo fantástico, na qual o personagem principal (Kostner) ouve uma voz surrurrante que parece sair do meio de seu milharal: "prepare o campo que eles virão". E ele não sabe do que se trata e fica confuso. Não vou contar o fim do filme para não perder a graça. Mas eu me senti um pouco o Kevin Costner olhando para o milharal. Vejo que preparei o campo e vocês estão voltando para o jogo. Obrigado pelo carinho.]

segunda-feira

["uma coisa interessante"]


Do jornal português Diário de Notícias, sobre a iraniana Shirin Ebadi, prêmio Nobel da Paz:

["bem, hoje aconteceu uma coisa interessante no trabalho." Foi assim que Shirin Ebadi, a iraniana e única mulher muçulmana detentora do Prémio Nobel da Paz - que lhe foi outorgado em 2003 -, começou a conversa com o marido para lhe contar que, nesse dia, ela tinha lido a sua própria sentença de morte. ]