Maui é a da direita, sem óculos.Eu acredito no Deus dos gatos. Quando tudo parece perdido para eles, eis que ocorre um milagre. A vida desses bichos está repleta de pequenos milagres. Às vezes eles ocorrem à luz do dia, à beira de uma estrada de Petrolina, por onde passam automóveis e caminhões, romeiros arrastando cruz, homens que venderam a alma ao diabo numa encruzilhada deserta. Os locais perigosos e ermos e os mais mal frequentados são sempre os mais propícios para as aparições divinas. Falo do Deus dos gatos, evidentemente. Maui é testemunha de um milagre. Se não o carro no qual viajava sua salvadora não quebraria a poucos metros de onde ela estava.
Hoje, ela dorme numa cama quente e não precisa perambular mais pelas ruas cobertas de pó, onde os poucos restos de comida encontrados são disputados por crianças esfarrapadas e sem nenhum Deus que cuide delas. A dona de Maui não sabe que não existe o acaso na vida de humanos e felinos, que eram deuses em outras eras e se comportavam como tais. Ela também não sabe que, a partir de agora, sua vida ganhará outro rumo. Com um desses pequenos e antigos deuses andando sem cerimônias por seu apartamento, ela será testemunha de pequenas transformações à sua volta: estará mais atenta a quem precisa de sua proteção, receberá cargas de energia nos momentos em que estiver triste e desanimada; dará muitas risadas com algumas perantices de sua mascote; terá alguém com quem conversar e trocar confidências; ganhará uma fonte nova de inspiração para seus escritos e uma ouvinte atenta para suas histórias. E essas histórias certamente se enriquecerão com a formação de uma nova dupla literária. A mais jovem toma leite e a mais experiente talvez já tenha descoberto que existem bebidas melhores que coca-cola.


