domingo

verão

De todas as versões de Estate, gosto mais da de João Gilberto, apesar do seu italiano de novela da Globo. Mas cada uma das que eu selecionei tem alguma coisa particular, seja na interpretação, na voz do cantor ou no balanço jazzistico dessa bela canção. Se eu tocasse violão, aprenderia os acordes.









sexta-feira

um autêntico Mário Viana

Mário Viana falando e Mário Viana escrevendo são absolutamente iguais. A piada rápida, a sacada esperta com que brinda os amigos nas rodas de conversas, são transpostas para seu texto de forma natural. Tenho grande dificuldade em escrever diálogos, pois quando os leio em voz alta soam muito artificiais. Por mais que me esforce para tornar o texto mais próximo do registro oral, não fico satisfeito. Mas o Mário é um exímio lapidador de diálogos. Me lembro muito das tiradas rápidas do Woody Allen, que emenda uma piada na outra e explora o politicamente incorreto. É difícil imaginar o humor sem o politicamente incorreto.

Fui ver "Vamos?" a nova peça que Mário estreou há uma semana, num dia frio, com teatro lotado. Nesse dia, ele comemorava o feito de ter cinco peças simultaneamente em cartaz. E todas com boa resposta do público e da crítica.  De todas as peças às quais assisti, "Vamos?" é a mais divertida. Acho que Mário chegou próximo da fórmula perfeita.

E a montagem, assinada por por Otávio Martins, tira proveito de um elenco bem entrosado que até parece fazer parte de uma companhia estável.

A história é simples e nasce de uma pergunta que muita gente já se fez: por que duas pessoas que são amigas não podem ir para a cama? Quem disse que isso arruinaria a amizade? Ao colocar dois casais em cena, com os mesmos interesses, Mário abre espaço para que a pergunta seja respondida. O resultado é um jogo divertido, em clima de comédia de erros e de stand up. Aconselho levar um caderninho para anotar as piadas e contá-las depois para os amigos. Ou então voltar para rir com as piadas novas que, com certeza, serão incorporadas.

terça-feira

quase...

Jabulani, vítima de maus tratos na África

Me rendo a minha insignificância futebolística, depois de acompanhar as peripécias de Paul, o polvo vidente. Errei quase todos meus prognósticos nessa copa chata e barulhenta. Não só: todas as seleções pelas quais torci foram eliminadas. Na final, decretei neutralidade para não prejudicar a Espanha pela qual, do fundo do meu coração e do ódio fidagal contra a Holanda, torci de forma discreta, sem fazer alarde, sem vuvuzela. A jabulani corria alegre, como seu nome já diz, no gramado sul-africano e eu estava vendo um filme japonês. Sabia que o jogo estava na prorrogação, mas temia perguntar a alguém do desenrolar da partida. Um espectador que ouvia a partida pelo rádio do celular anunciou para as pessoas que estavam próximas dele: "Gol, a Espanha marcou". Na sala, ninguém reclamou do barulho. Todos queriam saber o placar, mas também não ousavam manifestar interesse: vai que dá zica. O sofrimento continuou e, logo depois, o mesmo comentarista anunciou: "faltam dois minutos para acabar". Foram os dois minutos mais longos que nossos relógios acompanharam. Por fim, ele fez sua última observação: "O jogo acabou. a Espanha é campeã". No escuro da sala, outra voz se ergueu, em portunhol: "Soy hijo de espanhois. Voy cantar um passo doble". Por sorte, ele não cumpriu a promessa. Em seu aquário, Paul suspirou aliviado, pois sabia que escaparia da panela.

quinta-feira

o cão vermelho

Quando era criança tive cachorros, agora tenho gatos. Mas nunca deixei de simpatizar com os caninos, principalmente depois de ler Jack London e de observar nas ruas os cães que seguem seus donos sem teto e se esquentam em baixo de alguma marquise, no chão forrado com papelão. Eles sabem que o homem enfrenta dificuldades e por isso dividem seu espaço e até sua comida com ele.

Mas nunca havia visto um cão revolucionário, como Lukanikos, o vira-lata grego que acompanha os manifestantes em seus protestos contra a crise econômica do país e enfrenta a polícia sem medo. Os manifestantes se protegem com lenços molhados e máscaras contra gás, mas Luka vai com o focinho e a coragem. Já vi por aqui labradores, com um lenço com a estampa de Che Guevara no pescoço, mas não traziam nos olhos aquela chama ardente de clamor por justiça e solidariedade, como vemos em Lukanikos. Mais pareciam ex-comunistas gordos atracados em algum bom cargo público, como navios com o casco enferrujado e que nunca mais voltarão ao mar.

Se eu tivesse um cão, queria que fosse como Luka (já até abreviei seu nome), destemido e amigo dos mais fracos. Na verdade um cão humanista do qual pudesse receber o conforto nos momentos dificeis. Provavelmente não o levaria para passeatas (já respirei minha dose de gás lacrimogêno na juventude), mas ele dividiria comigo a leitura dos jornais. Tenho certeza que latiríamos em concordância nas páginas do noticiário político.

domingo

outra chance para as mães

Esperei o final desse dia chuvoso para falar sobre o tema.

Que falta faz uma mãe, principalmente para filhos edipianos. Quem vai nos dizer que somos os melhores?

Quem levou a mãe hoje para almoçar fora, fez uma má ação, pois os restaurantes estavam cheios, o serviço estava péssimo e elas mereciam ter comido coisa melhor que as bracciolas com macarrão mole.

Então, no ano que vem, para compensar a bola fora de hoje, preparem vocês mesmos o almoço, encham a casa de flores e não desgrudem delas um minuto sequer, para serem merecedores daqueles elogios de que tanto precisamos para atravessar a rua diariamente.

No ano passado foi assim

Você viu o novo filme do Woody Allen?

Fui ver no fim de semana Tudo Pode Dar Certo, de Woody Allen. Deu um sabor especial chegar à bilheteria e pedir: "um ingresso para o filme do Woody Allen" e o funcionário entregar o bilhete para o filme certo. Um homem que estava atrás de mim na fila fez o mesmo pedido. Em outro cinema, tenho quase certeza que o atendente não saberia de qual filme se tratava. Essa é a diferença entre ir ao Unibanco e à LIvraria Cultura ou ir a um multiplex da vida e a uma livraria comum.

Gostei do filme, principalmente dos diálogos saborosos e extremamente rápidos. Estava com o Mário Viana e ele fez um comentário que, pensando bem, resume o filme: "Esse é um roteiro antigo do Woody Allen". Nada a ver com a fase europeia do diretor, com temas mais elaborados (Match Point) ou completamente alucinados (Vicky Cristina Barcelona).

De certa forma, Tudo Pode dar Certo tem uma pegada à la Annie Hall, com uma linda mulher tontinha por quem é muito fácil se apaixonar, piadas rápidas e o recurso do personagem falar com a plateia. Está certo que Boris Yellnikoff, o personagem interpretado por Larry David, é uma mala sem alça, em nada lembrando Woody Allen em situações semelhantes. Se Woody interpretasse Boris, não conseguiria ser tão desprezível quanto David. Mas o diretor quer que impliquemos com Boris. Talvez esse seja seu alter ego.

O filme parece realmente antigo e até algumas das referências são datadas, da época em que Allen ainda filmava em Nova York. Mesmo assim, o filme tem momentos muito engraçados. Mesmo sendo um filme menor do diretor é muito melhor que muitos avatares da vida. É o tipo de filme para comentar com os amigos, relembrar as piadas e tentar não esquecê-las no dia seguinte. Na segunda-feira de manhã, antes de ligar o computador para começar o trabalho, você pode dizer aos colegas do escritório: "fui ver o último filme de Woody Allen". E todo mundo vai se interessar para saber dos detalhes e ninguém vai querer perder a chance de assisti-lo. E isso renderá assunto para muitos dias seguidos. Quando Fellini era vivo, era a mesma coisa.