quinta-feira

[bola sete na caçapa do meio!]

Sinuca: física, geometria e segredos revelados.

[pra valer mesmo e não ficar ficar a impressão que você acertou por acaso, a jogada tem que ser cantada, ou seja, dita em voz alta. Vou matar a bola sete na caçapa do meio! Se ela ricochetear nas tabelas laterais da mesa, deslizar pelo pano verde e cair em outro buraco, não vale. É cagada. E como tal deve ser denunciada pelo próprio autor, que se protege da galhofa alheia. Na sinuca não tem paradinha para enganar o goleiro. A trajetória da bola é traçada previamente e, dependendo de seu talento, a bola entra. Não existe sorte, apenas física e geometria.

Como o boxe, a sinuca também tem seu mundo subterrâneo e não florece nas mesas de salões elegantes, onde rapazes e moças bebem refrigerante e se divertem fazendo as bolas colidirem aleatóriamente contra as outras apenas para verem o efeito dispersivo e colorido, quase explosão de átomos do acaso, big-bang cósmico. Nesses salões bem iluminados e elegantes as bolas do jogo mais parecem vacas de uma manada desgarrada e sem comando. O jogo florece mesmo é nas mesas mais escondidas, de salões discretos onde os jogadores são pacientes e insones. As mesas são de boa qualidade, muitas oriundas de outros salões que já fecharam as portas, com cobertura verde tão reluzente como a grama de bons estádios, cuidada com antecedência para final de campeonato.

Alguns dos meus melhores amigos, ao longo dos anos, destinaram algumas horas de seu tempo para um jogo descompromissado, sem hora para acabar, regado com muita cerveja e conversa, nem sempre fiada. O diálogo em torno da mesa, nos momentos que antecedem a finalização de uma jogada fácil, pode ser banal, sobre amenidades, mulheres, desafetos do ambiente de trabalho, futebol. Mas, quando envolve o cálculo preciso, o silêncio necessário à concentração, o gesto calculado da mão que segura o taco, pode marcar o início de uma conversa mais séria, o compartilhamento de um segredo que estava à espera do momento solene da revelação. Ali está prestes a ocorrer um milagre. Não é à toa que a mesa é iluminada por halos de luz, como aqueles que distinguem pecadores de santos. Quando a bola branca esmurra com potência a de outra cor, que cai com um grito de dor na caçapa escolhida, o jogador que estava com o corpo inclinado sobre a mesa se apruma novamente, deixa o taco repousar ao lado da perna, e pode então dar um veredito certeiro, um conselho apropriado, uma palavra de conforto.

Só podemos falar de nós quando estamos em locais que permitem solenidade ao momento. Não se conversa em igreja, local de medidação e silêncio; não se conversa em transporte público, pois perdemos a intimidade na presença de tantas testemunhas. No salão de sinuca, só existe a mesa, envolta numa certa penumbra, coberta por fumaça de tabaco e oito bolas de marfim como testemunhas mudas e cegas.

Tive um amigo, parceiro em duas ou três noites, que me confidenciava sua felicidade por ter encontrado a mulher de sua vida. Vinha de um casamento fracassado, mas agora estava com a mulher que talvez devesse ter encontrado antes da primeira. Ele se rejuvenescia ao contar alguns detalhes de seu placar amoroso (não tantos assim, pois existia uma discrição masculina que não permitia a abertura de todas as portas). Fazia planos. Deu de pintar. Um ano depois foi esnucado por um enfarte. A bola branca, aquela que não pode nunca cair na caçapa, se desviou da rota e caiu no buraco, sem voltar para a mesa. Para ele o jogo havia acabado antes de matar a bola sete, negra como a noite lá fora.]

quarta-feira

[ana cristina cesar]

Ana Cristina, na contracapa de Inéditos e Dispersos

Parafraseando Mário de Andrade, é preciso escrever um post sobre Ana Cristina Cesar. Ao percorrer os blogs literários femininos-feministas, tenho notado que outra Santa olha por essas jovens poetas, além de Santa Clarice em cujo altar já acendi uma vela esta semana, pedindo por todas elas. Ainda vou citar alguns poemas que li esta semana, influenciados por essa poeta carioca morta tão precocemente. Tenho na minha frente uma edição de Inéditos e Dispersos, com poemas e textos que foram publicados postumamente.


[ESTOU ATRÁS


do despojamento mais inteiro

da simplicidade mais erma

da palavra mais recém-nascida

do inteiro mais despojado

do ermo mais simples

do nascimento a mais da palavra]


Na contracapa há uma foto dela, cabelinho curto, óculos redondo e um sorriso doce de quem espera a goiaba ficar madura.

[o eu outro]

O Enigma de um Dia, de Giorgio De Chirico, 1914. Acervo MAC

[você já quis ser outra pessoa? Não apenas ter outro corpo por razões estéticas, ser mais alto, mais magro, enfim, ser mais bonito. Falo em ter o corpo e a alma de outra pessoa. Ser o outro, o desconhecido, aquele com quem cruzamos na rua e do qual não tínhamos, até aquele momento, conhecimento da existência. Às vezes me vejo caminhando por lugares onde nunca estive, ou que reconheço por fotos de revistas, guiando um rebanho de cabras num terreno pedregoso, onde cresce um capim muito ralo e amarelo, quase seco, que alimenta os animais apenas o suficiente para mantê-los vivos e produzindo leite. Animais que há gerações se acostumaram com o pouco que conseguem tirar dessas pedras, mas que retribuem com leite quente e espumante. Eles parecem resignados àquelas paragens inóspitas. Quando o sol está muito forte, sem árvores que produzam sombra, descansam na entrada de cavernas úmidas, na verdade buracos escavados em encostas onde o solo é menos pedregoso.

Já me vi, em sonho, falando fluentemente uma língua estrangeira que, no meu eu presente, mal consigo balbuciar ou acompanho aos trambolhões, envergonhado por estar cometendo erros grosseiros, fruto mais da timidez do que da ignorância. Já me vi também imbuído de uma coragem até então desconhecida, que me levava a percorrer becos escuros e manter o passo firme mesmo com ruídos suspeitos ao redor. Ou com o silêncio absoluto, que paralisa a respiração.

Numa das primeiras vezes em que pensei estar na pele de outro, fazia uma viagem noturna de ônibus e olhava pela janela através do breu que se adensava a medida que os faróis dos carros desapareciam. Em pontos mais distantes, transpondo as cercas de arame farpado, que impedem os animais de criação de cruzar a pista, vi lampejos pálidos, como velas inúteis na escuridão. Imaginei quem estaria protegido e aquecido sob aquela luz e o invejei por ter, naquele momento, a consciência plena de que estava vivo. O ônibus, às escuras, com o ronco do motor mantendo um zumbido constante, se deslocando veloz na noite profunda, era um mundo paralelo que só passaria a existir de fato no momento em que parasse em algum posto de abastecimento. Aí sim, no meio daquela pequena aglomeração humana, num local afastado (como conseguiram chegar ali e ali permanecer?), passaríamos a existir.]
Quero escrever um pouco mais amanhã ainda sobre esse tópico...

terça-feira

"Não li e não gostei"

Chico tira de letra as ofensas dos beques que jogam pelo lado direito do campo. A foto é do blog da Tatiana Machado, que encarou uma dividida com o jogador do Politheama, num texto delicioso.

[li esse comentário que está no título em um blog pretensamente literário e cultural a respeito do novo livro de Chico Buarque, Leite Derramado. Me assustei com a avalanche de críticas ofensivas e preconceituosas derramada contra o escritor e compositor pela esmagadora maioria de leitores do blog, que nem vou nominar. O chamaram de mau escritor, de mau compositor, de artista decadente, de aproveitador. Tudo porque ele tem um passado e um presente político coerente com toda a sua trajetória como artista. Confesso que fiquei assustado. E decepcionado. Assustado com a sede de sangue, que eu acreditava não existir mais nesses setores mais conservadores. Decepcionado porque ainda procuro acreditar que as pessoas evoluem, amadurecem, reveem comportamentos, enterram preconceitos. Mas, como dizia o bom e velho Chico num dos momentos mais difíceis vividos por esse país, "você não gosta de mim, mas sua filha gosta".]

segunda-feira

[natureza viva]

Natureza Morta, de Daniel Fernandes

[domingo foi dia de feira, comunico com um dia de atraso. Nas barracas, frutas, verduras e legumes enfileirados formavam um painel colorido e brilhante. Inspiração para telas de natureza morta. Para mim, é natureza viva, pulsante. Um menino passa com o pai pela barraca de ovos (brancos e avermelhados) e o pai ensina: "os pássaros são ovíparos porque botam ovos". Não sei como a aula começou, nem como prosseguiu, pois eu continuei andando para fazer minhas compras. Quando eu era criança, minha mãe criava patos e galinhas. Gemada era com ovo de pata, mais forte; o gosto acentuado se perdia na mistura com o açúcar, a canela e o leite. Mais que os antibióticos que tomava diariamente, acho que foram as gemadas que me salvaram. Pelo menos era o que minha mãe dizia. E eu sempre acreditei nela.

Na feira de domingo comprei tomates do tipo italiano, grandes, vermelhos, doces. Seguindo a lei de Lavoisier, serão transformados em suculento molho para o macarrão e a carne dos próximos dias, em substituição aos molhos enlatados e ecologicamente incorretos. Nas barracas, uma aula de genética a céu aberto. Os pimentões que na minha infância eram apenas verdes e vermelhos, agora são amarelos e roxos, ou misturados com essas cores, parecendo um dálmata do reino vegetal. Aprendi em algum domingo longínquo que a revolução genética começa sempre nas barracas dos feirantes japoneses. Lá estão legumes e verduras alterados pelas mãos humanas: ganham cores, formatos, dimensões e sabores diferentes, como se tivessem sido trazidos de terras exóticas. Mas são todas cultivadas aqui, no cinturão verde que circunda São Paulo, aberto pelas enxadas dos imigrantes orientais e europeus.

A feira também é parte da aula sobre a geografia humana brasileira. Ao lado das barracas dos descendentes dos imigrantes estrangeiros que alimentaram suas famílias vendendo produtos na feira, estão as dos migrantes nordestinos, nos ensinando o sabor de algumas frutas que antes só eles conheciam: siriguela, sapoti, pequi (com seus espinhos internos e traiçoeiros, mas de gosto refinado para a culinária do Norte).

Tempos atrás, um governante burocrata que nunca deve ter colocado os pés numa feira criou uma lei para calar os feirantes, impedindo-os de apregoar seus produtos. Fui testemunha de uma verdadeira rebelião civil, armada apenas com o oxigênio dos pulmões, com os feirantes e seus filhos bradando a qualidade de seus produtos. A feira virou uma verdadeira torre de babel. Mesmo com todos falando a mesma língua, os sotaques se misturavam e nenhuma voz se distinguia, ao contrário, as vozes se misturavam num tempero tropical para qualquer prato doce ou salgado. Os feirantes ganharam no grito e o governante, envergonhado, rasgou o texto de sua lei que, se tivesse sido impressa em papel jornal, serviria para embrulhar pencas de bananas. Nada se perde, tudo se transforma.]

sexta-feira

[despertar paulistano]

[saio de casa para o trabalho muito cedo pela manhã. Os ponteiros do relógio, que regem nossos passos, se movem e, num ritmo que parece ensaiado mas na verdade é trôpego, outros personagens surgem: uma porta de garagem abre-se automaticamente e um carro sai sem que o rosto de seu condutor possa ser visto; um gato cruza a rua deserta sem pressa, como quem acaba de voltar de uma festa e ainda está muito feliz para sentir sono; japoneses idosos chegam de várias direções e se reúnem na praça do bairro, vestidos de branco, para a ginástica coletiva.

Em poucos minutos, no metrô, outros rostos ainda sonolentos fogem da luz no túnel subterrâneo que corta a cidade nas direções dos pontos cardeais. Os mais jovens são os que aparentam mais cansaço e fecham os olhos embalados pelo sacolejar dos vagões. No ouvido, os fones de aparelhos de mp3 parecem transmitir cantigas de ninar. Alguns leem, mas os livros sempre estão nas primeiras páginas. Será que vencerão o sono e conseguirão avançar até o final? Os assentos reservados aos idosos, grávidas ou pessoas com deficiência física estão ocupados pelos demais passageiros. Nesse horário, quem tem lugar garantido naqueles bancos ainda não saiu de casa.

Na estação onde desço, os camelôs já estão a postos com suas barracas armadas. Uma mulher com fresco sotaque nordestino, rosto moreno e liso como um pessego que acabou de ser colhido, ainda húmido pelo orvalho, vende café e bolo de milho que ela mesma faz. Ela sorri, entrega o bolo, recebe o pagamento, e já está pronta para novo cliente. Na cidade de onde ela veio, o sol já está nascendo e as ondas batem na areia, convidando para um passeio de barco. Ela está longe do mar, numa ilha cercada de pessoas apressadas que pararam para comer de suas mãos. Elas são limpas e macias e entregam cada fatia de bolo como o mar de sua terra, que lança conchas na areia.]

quinta-feira

[você tem de gostar do meu presente]

Interpretação tipográfica de um conto de Italo Calvino feita pelo designer David Damico
[presentear com livros é uma tarefa agradável pois implica em ir a uma livraria e procurar a obra certa para a pessoa certa, como uma roupa que possui a modelagem certa para cada corpo. Mas a padronização dos corpos e a dos cérebros são completamente diferentes. O livro que é bom para um, não é bom para outro. Aquele livro que me abriu tantas portas, pode ser uma tábua áspera para alguém que não trilhou as mesmas estradas que meus pés. Mas devo ser sincero, pois na maioria das vezes em que escolho a obra, penso mais em mim que no outro. Penso na boa ação que faço ao prescrever o remédio para alguém que julgo dele necessitar. Até porque esse medicamento curou o meu mal. Penso também que se alguém tem de mudar, esse alguém é o presenteado e não o presente. O livro é o correto, mas ainda vai demorar algum tempo para o outro perceber isso. Até lá ele vai vagar por aí e vai sofrer até o momento certo para encontrar o volume, alinhado na estante ou soterrado por uma pilha de outros livros. Talvez a capa ou o título chamem a atenção. Ou a cor da lombada. Mas o certo é que esse dia vai chegar.
Aos jovens jornalistas que ainda estão na faculdade ou já se formaram eu dou Fama e Anonimato, de Gay Talese. Sei que alguns leem e percebem existência de um mundo novo, longe das páginas das revistas de celebridades. Eles percebem que há vida por trás de cada palavra usada para contar uma história. Sei também que outros não leem ou inventam tantas desculpas para não ler que me preocupo com seu destino. Antevejo as dificuldades que encontrarão na profissão, mas me tranquiliza saber que eles ainda têm o remédio ao alcance da mão.

Para os que não são jornalistas, mas estão descobrindo o prazer de ler, eu peço para a vendedora embrulhar Italo Calvino para presente. Os Amores Difíceis, o Barão nas Árvores, Marcovaldo e as Estações, por exemplo. Mais do que mostrar que cada palavra tem sua vida e sua história que merece ser contada, Calvino consegue enfileirá-las de uma forma muito original, inusitada, muitas vezes surreal. Já li praticamente todos os seus livros e, quando estiver mais velho, vou voltar a eles como se volta aos clássicos, ou, de uma forma que Calvino gostaria de saber, como se volta às histórias em quadrinho da infância. Os desenhos são sempre os mesmos, mas parecem diferentes a cada leitura.

O Castelo dos Destinos Cruzados, que li num local tranquilo, num período de descanso do trabalho, foi o último que devorei. A história é surreal, num clima de fábula antiga, marca de boa parte de sua obra.]