quarta-feira

Los toreros no fuman puros


Eran las cinco en punto de la tarde. La plaza de Vistalegre, un moderno coso cubierto, novedoso invento para alargar las temporadas taurinas, filtro contra el sol implacable de los veranos y de los fríos polares de los eneros del cambio climático, había colgado el cartel de no hay billetes. También había colgado el cartel de prohibido fumar, pues, una vez cubierto, se consideraba un local cerrado.

Salió el primer toro, y los buenos aficionados sacaron instintivamente del bolsillo, donde antes guardaban sus puros habanos, unas enormes bolsas de pipas de girasol. La plaza fue pronto un murmullo nervioso de crujido de cáscaras, mientras en la arena el toro se desangraba por las heridas abiertas a puyazos y banderillas. Alguien no pudo contenerse y encendió un puro inmenso.

Cuando el torero dio muerte al animal, inexplicablemente la policía se llevó detenido al del puro y no al torero.

terça-feira

A louca da Pavuna 2

Uma foto antiga da Estação Ferroviária da Pavuna. A Louca da Pavuna passava por aqui, andava pela linha férrea, se equilibrando nos trilhos, descalça, alheia ao perigo. O maquinista já a conhecia e reduzia a velocidade do trem antes de chegar à Estação. E acionava o apito para avisar que estava chegando. A louca achava que ele a saudava. Mas era o sinal para que alguém a tirasse da linha. E ela saía, mansa, rindo, agitando o vestido.

Ménage à trois

Ganhei de presente todos os contos da Virginia Woolf lançados pela CosacNaify. Capa linda. Abri, cheirei as páginas e senti aquele perfume de tinta e verniz de livro novo. Antes de começar a ler eu cheiro o livro. Está na pilha, ao lado da cama, na fila para ser lido, ao lado de outros que já cheirei. Sei que não vou resistir e lerei alguns contos durante a semana, mesmo sem ter terminado os outros livros que estou lendo: "As Mulheres de Meu Pai", do José Eduardo Agualusa, e um volume de crônicas que a Clarice Lispector publicou no JB na década de 60. Será um ménage à trois clássico: duas mulheres e um homem.

A louca da Pavuna

Praça da Pavuna, frequentada pela louca.
Essa imagem tem alguma coisa de surrealista.

O dia amanheceu sem chuva e o outono se impôs em sua face mais marqueteira, trazendo aquela luz típica de olhos azuis. Deixei meu óculos de sol em casa para poder enxergar a cidade com suas cores outonais sem nenhuma interferência.

Enquanto caminhava para o trabalho, muito cedo pela manhã, me veio uma idéia à cabeça: escrever uma história com o título "A Louca da Pavuna". Não sei porque, talvez alguma referência rápida que eu tenha lido sobre esse bairro carioca em alguma crônica da Clarice Lispector. Ou o samba de Almirante. Ou porque o nome Pavuna lembra mistério, periferia carioca de antigamente, Machado de Assis, João do Rio. Uma história com uma certa nostalgia da vida suburbana do Rio que eu conheci na infância na casa de meus avós, mas que eu apenas sei que existiu ao ver as fotos no álbum de fotografia de minha mãe.

Já tenho o título. Falta a história.

segunda-feira

Minhas seguidoras

Tenho duas seguidoras: Iaiá e Ingrid. Descobri hoje. Ingrid só segue a mim. Iaiá, que tem uma tatuagem no ombro direito (será que é o ombro dela?), segue mais dois. Iaiá gosta de poesia e segue um poeta. Comecei a seguir poetas aos 13, 14 anos, quando descobri Carlos Drummond de Andrade. Pegava um ônibus e ia para a biblioteca pública em outro bairro. Acho que o primeiro livro que pedi para a bibliotecária e levei para uma mesa longe dos demais consulentes (que palavra horrível) foi "Alguma Poesia". Se abria um mundo novo para mim, longe dos versos rimados e metrificados de Raimundo Corrêa que o professor de português insistia em nos fazer decorar. Eu li o livro inteiro. Pedi também Mário de Andrade, Oswald de Andrade e mergulhei fundo, de cabeça.

Ainda hoje, poesia para mim é remédio para a alma, é prece. É contato com o desconhecido. É sair do corpo. Chega a ser metafísico e o máximo grau em transcendência que consegui chegar. Mas se eu me aprofundasse mais, como deveria, acho que levitaria.

Se consegui descobrir algo sobre Iaiá, nada encontrei sobre Ingrid. Não sei o que mais elas podem ter em comum além da letra i do nome. Não sei se são amigas, se estudam juntas, se um dia se encontrarão e lamentarão não terem se conhecido antes que se tornassem minhas seguidoras. Elas podem até suspirar: "por que ele não começou o blog antes, assim teríamos nos conhecido mais cedo". Se eu soubesse que dependeria de mim apresentar as duas, certamente teria sido menos preguiçoso.

Caem as folhas, os prédios

gosto do outono. Nada a ver com as folhas secas que caem das árvores. Não vejo a estação como metáfora para o renascimento. Gosto da luz do outono. É mais tênue, parece vir filtrada por óculos rayban. O céu é mais azul, a brisa é mais suave. A vida parece mais leve, menos sofrida.
Eu estava na companhia de um amigo fotógrafo para uma entrevista e, antes de entrarmos no prédio, olhei para o céu e comentei com ele: "Gosto dessa luz". Ele estava tirando o equipamento do carro e me acompanhou durante alguns segundos na observação. Ele concordou que o outono fazia bem para as fotos. Quem vive da luz, como ele, precisa estar sempre atento à natureza.

Lembrei da luz de outono, ao sair hoje de casa com o dia nublado. O outono estava temporariamente suspenso. Dia triste, úmido. Um dia sem sombras, sem a profundidade de campo de que gostam os fotógrafos. Não sei porque mas os dias chuvosos são
mais longos, espichados, terminam numa longa agonia. Agonia do dia, ele próprio registrando as marcas do sofrimento da natureza.

Tenho algumas lembranças marcadas por dias nublados e chuvosos, mas são todas lembranças de infância. Vejo a porta da sala aberta, a chuva forte, caindo e formando uma cortina, os relâmpagos, as luzes da casa apagadas e os espelhos cobertos. Minha mãe rezava e me pedia que ficasse imóvel, longe de vidraças, em silêncio absoluto, para não ser detectado pelos raios. A cada descarga, o coração disparava, vinha à boca. Quando a chuva parava, saía para o quintal e observava os canais abertos pela água no quintal de terra. Eu aproveitava a ajuda da natureza e construía diques, desviava a água para lagos protegidos por lama comprimida. Quando o sol chegava, forte, a lama endurecia e formava crostas duras, como as cascas das feridas nos meus joelhos e braços, sempre esfolados pelos tombos nos carrinhos de rolimã.

quinta-feira

"Quero ser puta"


(Na ilustração, tela da artista plástica Natalia
Fabia, da série Hooker Safari)


– Quando você escrever um livro eu quero ser personagem. Pode ser qualquer uma, até uma puta.

Não sei de onde X tirou essa ideia quando me fez o pedido. Aos dezessete anos, no último ano do clássico, nunca havia dito nada a ninguém sobre minha intenção de escrever um livro. Nem sabia que um dia viria a escrever um – na época tinha cometido apenas alguns poemas ingênuos, nenhum embrião de futura obra literária.

Com a publicação de meu primeiro romance, vinte anos depois, lembrei do pedido de X que não atendi. Estudávamos na mesma classe e ela acompanhava meu interesse pelas aulas de literatura comparada, sem saber que meu interesse maior estava nas aulas de sociologia, mais precisamente na professora de dedos longos e unhas brilhantes.

Ao fazer seu pedido, X talvez tivesse em mente as putas de Jorge Amado, sensuais e quase familiares, e não as putas vocacionais de Nelson Rodrigues. Eu conheci várias categorias de putas, se é que elas podem ser classificadas, mas são lembranças mais recentes; na época, eu não as conhecia tão intimamente e tinha na lembrança apenas as mulatas ancudas de Jorge Amado, de vestidos justos e floridos, colados ao corpo e cheirando a suor e azeite de dendê. Ou a cravo e canela. Mas Gabriela não era puta, era apenas devotada ao seu homem, como muitas putas, aliás.

Certamente a puta que X até concordaria em ser não era Geni, que cortou os pulsos e ditou suas últimas palavras ao gravador em Toda Nudez Será Castigada. Esta era uma mártir apaixonada.

Conheci putas tristes, com histórias pretensamente trágicas, mas que, na verdade, eram boas atrizes; putas que não se consideravam putas, mas eram putas; putas que gozavam loucamente e haviam descoberto uma ocupação prazerosa e remunerada. Também conheci putas religiosas, que rezavam depois de receber o dinheiro; putas casadas, que obtinham na rua o que não tinham em casa; putas-amigas, que adoravam estar com você, de conversar com você, de trepar com você e ganhar para isso.

Apesar de ter conhecido muitas putas e ter me apaixonado por algumas delas, não sou um profundo conhecer de sua alma. Também não sou um grande criador de personagens. As mulheres de meus livros não trazem um sentimento trágico ou épico do mundo, portanto em nada se assemelham a uma puta.