São Paulo amanheceu nesta sexta-feira como o set de Amarcord, de Fellini, coberta por uma neblina pesada que permitia a visão de apenas alguns palmos à frente do nariz. Ao abrir as cortinas do quarto, às 6 horas da manhã, vi apenas alguns galhos das árvores do jardim furando uma nuvem densa de algodão doce. Segui os antigos conselhos de minha mãe e não me agasalhei muito. Apesar do frio curitibano, sabia que em menos de uma hora o sol surgiria forte e dissiparia o nevoeiro. Quando liguei o computador, vi a notícia de que os aviões estavam colados nas pistas dos aeroportos paulistas. Os pilotos, seguindo orientação das torres de controle, esperavam a ordem para decolar. Mas, mesmo sem essas ordens, bastava telefonar para suas mães para saber que o sol logo derreteria a serração. Na minha infância, neblina era serração e gripe era resfriado. Nos anos 60, quando eu ia para a escola chutando pedras com meu Vulcabrás de bico desbotado, o caminho era todo fechado pela neblina matinal. No intervalo do recreio, quando sol já estava forte, surgia uma bola e durante uns 30 minutos nos aquecíamos com um jogo rápido e às vezes violento no páteo. Ao som da campainha, voltávamos para a sala de aula, suados e eventualmente sangrando. Mas não era nada que motivasse preocupações maiores.
Na verdade, olhando para trás e forçando um pouco a memória, éramos quase invisiveis para os professores. Lembro do professor de português, no terceiro ano do ginásio, que lia poemas de Raimundo Corrêa, enquanto dava baforadas num cigarro espetado numa piteira preta. Não lembro se ele jogava as guimbas no chão ou se apagava o cigarro num cinzeiro. Pobre professor, hoje teria seu diploma cassado e não poderia mais lecionar em São Paulo. Perseguido só por ser parnasiano.
Na verdade, olhando para trás e forçando um pouco a memória, éramos quase invisiveis para os professores. Lembro do professor de português, no terceiro ano do ginásio, que lia poemas de Raimundo Corrêa, enquanto dava baforadas num cigarro espetado numa piteira preta. Não lembro se ele jogava as guimbas no chão ou se apagava o cigarro num cinzeiro. Pobre professor, hoje teria seu diploma cassado e não poderia mais lecionar em São Paulo. Perseguido só por ser parnasiano.



