segunda-feira

Noturno

Quando eu era criança, colecionava rótulos de carteiras de cigarro. Eu e os meninos do bairro pegávamos as carteiras vazias jogadas nas ruas, descolávamos cuidadosamente as laterais e abríamos a embalagem como uma nota de dinheiro. Trocavámos as repetidas, como se fossem figurinhas, e invejávamos os que tinham as mais difíceis, de cigarros importados ou de cigarrilhas. Eu gostava da embalagem dos cigarros Noturno. Não era das marcas mais comuns, apesar de parecer um cigarro popular. Nunca conheci alguém que fumasse Noturno. Já havia visto no bolso da camisa de vários homens do bairro carteiras de Continental (com e sem filtro), Macedônia, Cônsul e Minister.

Na carteira de Noturno, uma luminária acesa, no formato de balão chinesinho, instalada num pórtico de pedra, iluminava parcialmente uma rua imaginária na noite fechada. Me lembrava uma noite intransponível, cobertapor uma neblina húmida, daquelas que eram tão frequentes na minha infância. Era possível ouvir os grilos, os sapos, o latido de cachorros invisíveis, sempre ameaçadores. Uma luz tão mortiça impedia que lhes vissem os olhos injetados de medo e ódio.

2 comentários:

  1. Nota maxima pelo remenber.

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  2. Pois eu achava que era só eu que tinha exatamente esta lembrança do cigarro Noturno.... legal! Mas a minha mente repaginou a imagem. Na minha cabeça, era uma luminária de esquina de uma rua em declive....

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