quarta-feira

o que é um jardim?

"O que é um jardim para um beija-flor no seu ninho?", pergunta Ricardo Blauth, autor da foto.

"Será um jardim só aquilo que descreve o dicionário?", indaga o artista plástico Ricardo Blauth, um de nossos seguidores, no blog Os Jardins da Garopaba. E ele questiona novamente: "Não será a areia da praia o jardim do mar?"
Eu tento, pacientemente, reconstruir os jardins da minha infância e atrair os pássaros que os frequentavam. Colho sementes nas ruas e lascas de galhos que coloco na água a espera que criem raízes. Lhes dou um novo endereço e uma nova oportunidade de vida, como se participassem de um programa de proteção à testemunhas e precisassem de abrigo depois de cumprirem uma missão importante. Pelo menos uma dessas plantas, que hoje oferece lindas flores roxas, já não existe mais no endereço original de onde foi capturada. Cedeu o lugar para um muro. Uma muda de bananeira, que ganhei de um amigo, se proliferou de tal forma que tive de conter seus avanços para que não ocupasse o lugar de uma ameixeira que surrupiei com menos de um palmo de altura de uma calçada do bairro e que hoje já está com quase um metro.

segunda-feira

o valor de um poema

“A rigor, o valor de um poema define-se pela sua linguagem. Como há 5 mil anos foram feitos milhões de poemas e o poeta vai repetir aqueles mesmos temas, penso que somente a linguagem pode ser o diferencial na forma de colocar estes temas. Mas não é só isso: é preciso que a linguagem se transforme no fenômeno poético! O que é isto? Esta é uma questão que gostaria mesmo de polemizar, por isso algumas frases provocativas. Ser poeta é visualizar outro estado de ser. Vejo a poesia como um ser vivo e sagrado em seu desdobramento mítico e inviolável. O conteúdo de um poema só é bom quando instala o estranhamento, o mistério, a indagação. Só é bom quando se afasta do transitório, da banalidade, da babaquice, em direção ao eterno. A arte é ainda uma catarse. Exige nosso sangue. A poesia circula nas veias do poeta, na angústia de ser poeta. O verdadeiro poeta transcende os limites da percepção rotineira. A verdadeira poesia rompe o tecido conceitual da realidade, cria uma nova tessitura poética, mais real, irreal, surreal em sua essência (....) O lugar do poema é no limiar da metáfora, embora a poesia moderna privilegie a metonímia, é a metáfora que dá emoção à poesia. Mas emoção, como dizia Ferreira Gullar, não é emocionalismo barato. O bom poema necessita de contida elaboração, mas a técnica por si só pode tornar-se inútil e estéril se não veicular a poesia (....) Tenho lido muitos poemas em meus 65 anos, no entanto, parece que quase todos dizem la stessa cosa. O mais patético, hoje, são aqueles que fazem ‘experiências’ com a palavra sem nada a ver com a poesia”.

Osmar Pisani
(1936-2007)

terça-feira

“Vim te buscar, meu amor! Vamos embora”


A dupla Bonnie & Clyde foi vista em Itapevi.

A frase, completada por um beijo, não foi dita por Humphrey Bogart a Ingrid Bergman, no filme Casablanca, numa tentativa vã de impedi-la de embarcar naquele teco-teco com um cara muito esquisito chamado Victor Laszlo. Ele não disse essas palavras mágicas e ela, mesmo querendo ficar, partiu com o esquisitão. E o velho Bogart, que dizia estar sempre três doses acima da humanidade, se contentou em voltar para seu bar na companhia do chefe de polícia, dizendo que ali nascia uma grande amizade.

O verdadeiro autor da frase foi o namorado de Paula Vezicato, uma morena bonita, de olhos grandes e vivos, por quem é fácil se apaixonar. Ele abriu a porta de sua cela e ela saiu. Mas não era uma prisão metafórica. Era uma cela da cadeia de Itapevi (SP). Os dois se abraçaram e ele disse a frase de galã. Cinco minutos antes, numa ação também cinematográfica, ele havia invadido a delegacia, armado, e rendido os poucos policiais presentes. Se ele não fosse bandido, seria herói. Bruce Willis. Num gesto ainda mais generoso, abriu todas as celas e libertou outros 17 presos. Schwarzenegger. Tudo foi rápido e sem violência. Não houve troca de tiros. Mesmo fulminante, o amor só atingiu o casal-bandido.

A polícia chegou atrasada, mas conseguiu momentos depois prender oito dos fugitivos e localizar o carro usado na fuga. Mas nem sinal da moça. Ela já estava em local seguro. Os moradores da cidade, um dos pequenos municípios da Grande São Paulo que se transformaram em cidades-dormitórios, deram entrevistas aos jornais populares e se disseram preocupados com a falta de segurança. Preocupação desnecessária porque o bandido apaixonado, como foi batizado pelos jornais, já realizou sua proeza e não voltará mais a atacar. A não ser que sua amada seja novamente presa. Mas, certamente, o casal vai ser mais cuidadoso daqui por diante e ela não se deixará mais ser abordada em um carro roubado, com a bolsa cheia de pedras de crack .

quarta-feira

Maui e Ilana

Maui é a da direita, sem óculos.

Eu acredito no Deus dos gatos. Quando tudo parece perdido para eles, eis que ocorre um milagre. A vida desses bichos está repleta de pequenos milagres. Às vezes eles ocorrem à luz do dia, à beira de uma estrada de Petrolina, por onde passam automóveis e caminhões, romeiros arrastando cruz, homens que venderam a alma ao diabo numa encruzilhada deserta. Os locais perigosos e ermos e os mais mal frequentados são sempre os mais propícios para as aparições divinas. Falo do Deus dos gatos, evidentemente. Maui é testemunha de um milagre. Se não o carro no qual viajava sua salvadora não quebraria a poucos metros de onde ela estava.

Hoje, ela dorme numa cama quente e não precisa perambular mais pelas ruas cobertas de pó, onde os poucos restos de comida encontrados são disputados por crianças esfarrapadas e sem nenhum Deus que cuide delas. A dona de Maui não sabe que não existe o acaso na vida de humanos e felinos, que eram deuses em outras eras e se comportavam como tais. Ela também não sabe que, a partir de agora, sua vida ganhará outro rumo. Com um desses pequenos e antigos deuses andando sem cerimônias por seu apartamento, ela será testemunha de pequenas transformações à sua volta: estará mais atenta a quem precisa de sua proteção, receberá cargas de energia nos momentos em que estiver triste e desanimada; dará muitas risadas com algumas perantices de sua mascote; terá alguém com quem conversar e trocar confidências; ganhará uma fonte nova de inspiração para seus escritos e uma ouvinte atenta para suas histórias. E essas histórias certamente se enriquecerão com a formação de uma nova dupla literária. A mais jovem toma leite e a mais experiente talvez já tenha descoberto que existem bebidas melhores que coca-cola.

terça-feira

Yes, we can... eat rucula


Fiquei sabendo hoje pelo blog Literatura Cotidiana, onde escreve o Marco Bogato, que o Obama quase perdeu a eleição porque come rúcula. Fui pego de surpresa e pesquisei na internet algumas referências sobre o assunto. Durante a campanha Obama comentou, num estado produtor de milho, que o preço da rúcula estava os olhos da cara (the eyes on the face). Bastou para que os mais conservadores americanos o chamassem de elitista. Um político ligado a Bush pai disse que precisou procurar o que era rúcula no dicionário. Me espanta que ele soubesse a utilidade de um dicionário, além de substituir pés quebrados de camas ou servir de suporte para o monitor de computadores.

Nos EUA, candidato que honra o nome e as calças tem de comer aqueles horrorosos e gordurentos churrascos de hamburguer, regados de cerveja aguada, quase choca. É como nossos candidatos que só mostram a força de seu caráter quando sentam num aprazível botequim e degustam uma saudável buchada de bode, com o suor escorrendo em bicas pela fronte.

Pobre Obama, homem elegante, casado com uma bela mulher (as americanas invejam seus braços longos e firmes) e pai de duas lindas filhas, que arrumam sozinhas a cama e ajudam a lavar os pratos depois do jantar. Fico imaginando o cardápio da família, que não deve ser divulgado para não assustar ainda mais os eleitores conservadores.

No Brasil, a rúcula é bem popular e pode ser encontrada em duas versões: a hidropônica (cultivada em água com nutrientes) e a tradicional, que cria raízes na terra. Eu prefiro a que brota da terra, cujo gosto é um pouco mais amargo, mas mais saboroso, principalmente com tomates, regada a azeite e limão.

domingo

[primeiro, matam nossos girassóis...]


Apenas um campo de combustível?

[o progresso, decididamente, parece ser inimigo da beleza e da poesia. Brecht alertava que, enquanto dormimos, inimigos invisíveis se aproximam e pisam nas flores de nosso jardim e avançam gradativamente em suas crueldades. Na cidade de Novo dos Parecis (MT), máquinas gigantescas estão pisando e esmagando um campo amarelo de girassóis para transformar essas flores imortalizadas por Van Gogh em óleo comestível e biodiesel.

Li a notícia no jornal Valor Econômico de quinta-feira (30/7). E, ilustrando o texto, uma foto do campo, com as flores do sol espetadas na ponta de caules firmes com seu gigantesco olho amarelo observando o fotógrafo, mas ainda não cientes do perigo que correm. Na visão moderna do pintor holandês, o quadro poderia estar representado por embalagens de óleo ou por caminhões se movimentando nas estradas, movidos pelo combustível ecológico. Lembrei dos bebês focas do Canadá, sacrificados por serem belos e frágeis.

Quando os artistas semeiam o campo, os investidores chegam com suas máquinas; quando as flores desabrocham, são ceifadas e esmagadas. Por que o belo tem que ser sacrificado? Por que a beleza tem que ser fugaz? Deixem as flores morrerem de velhice, deixem-nas perderem as pétalas, uma a uma, e cumprirem seu ciclo. Façam combustível da mamona, da soja e de outras plantas que nunca abriram olhos tão grandes e deslumbrados para o mundo. E nunca inspiraram poetas e artistas. Poupem essas fontes de beleza e deixem que sejam lembradas pela maciez de suas pétalas, pelo design de suas formas e por suas cores quentes. Deixem que elas alegrem os campos e nos façam esquecer da aridez das cidades. Deixem que elas simplemente existam com a única finalidade de nos encantarem.]

quinta-feira

[um ônibus sai do alabama e passa por goiás]

Em 1955, Rosa Parks estava nesse ônibus, que circulou na quarta-feira em Rio Verde, Goiás.

[depois do protesto dos executivos em São Paulo que ergueram barricadas nas ruas com suas pastas 007 e notebooks com conexão wireless, contra a proibição de ônibus fretados em alguns bairros da cidade, foi a vez de uma voz solitária, de uma mulher persistente de Rio Verde (GO) fazer valer seus direitos, lembrando a resistência pacífica de Gandhi. Mesmo longe do congestionado trânsito paulistano, por coincidência o motivo do protesto da aposentada Luzia Jesus de Oliveira, de 60 anos, foi também o transporte coletivo.

Ela entrou no ônibus e exigiu não pagar a passagem por ter 60 anos e direito a receber esse benefício legal. O motorista não concordou e pediu que ela descesse. Suponho que educadamente. Ela bateu o pé: não. O motorista também foi cascudo: então ele não sairia do lugar pois recebera ordens da empresa de não permitir a carteirada de idosos. Ela não arredou pé. Os demais passageiros, já atrasados em seus compromissos, saíram do ônibus. Ela ficou sozinha em seu assento, o motorista no dele. Creio que houve um silêncio abissal entre ambos, até a chegada dos jornalistas (diplomados e não diplomados), com sua parafernália de câmeras, microfones, rotativas, estilingues (para autodefesa, claro) e bolas de gude. Se fosse no boxe seria uma luta fadada a terminar em empate técnico; se fosse no xadrez, a partida teria que ser interrompida e reiniciada no dia seguinte. Mas o palco era uma cidade brasileira e o motorista sacou sua última carta, digna de países localizados abaixo da linha do Equador: "vou chamar a polícia".

Dona Luzia não se intimidou, como não se intimidaram os engravatados e as mulheres de terninho de São Paulo, equilibradas em saltos que só perdiam em altura para o Edifício Itália. Pois chame, que eu não sou estudante da USP (na verdade quem usou esse argumento irrefutável foram os manifestantes paulistanos, lembrando sutilmente que a tropa chamada pela reitora baixou o porrete nos alunos da USP em greve). Só faltou o rádio do ônibus tocar o Hino Nacional, pois o que ela falou naquela hora estava carregado de fervor cívico, salve, salve: "Estou aqui para defender minha classe. Não só os idosos de Rio Verde, mas de qualquer lugar do Brasil. Eles têm que aprender a respeitar a terceira idade".

Uma funcionária do serviço de trânsito da cidade, Idelma Lopes da Silva, interveio com a força de seu cargo: "Você leva a moça até o destino dela. Se alguém da empresa questionar, você diz que é ordem da Secretaria Municipal de Transportes". O motorista, imortalizado pelas câmeras de TV no papel de vilão dessa novela rioverdana (até sua mãe o odiou naquele momento), engatou a primeira. O motor do ônibus roncou preguiçosamente, a porta foi fechada e Dona Luzia seguiu sua viagem, gratuita, até seu destino. Ela estava atrasada, mas saiu de alma lavada e engomada com anil. Ela abriu a janela, sorriu e fez um sinal de positivo com o polegar da mão esquerda (será que, além do mais, ela é canhota?) para delírio de fotógrafos e cinegrafistas que colocaram Rio Verde em horário nobre.

Há 54 anos, Rosa Parks, uma costureira negra que se recusou a dar seu lugar a um passageiro branco, num ônibus na cidade de Montgomery, no Alabama, desencadeou um movimento de boicote contra o transporte coletivo da cidade e fortaleceu o movimento dos direitos civis nos Estados Unidos e a luta contra o segregacionismo. Hoje o ônibus no qual Rosa Parks foi barrada pode ser visto em um museu. O ônibus de dona Luzia circula livremente por Rio Verde, levando outras pessoas idosas que, a partir de agora, se sentirão apoiadas para também reivindicar seus direitos.]